O silencioso aprendiz

Fotografia © Ashish Langade
Fotografia © Ashish Langade

“Sabe aquele silêncio que nem a espada mais afiada fatia? Esse silêncio é Deus”, disse o velho mendigo ao menino engraxate que lhe entregava um copo com água, trazida do chafariz.

“Mas Deus também pode ser outras coisas. Ele pode ser o verbo. E o verbo é algo que um analfabeto como eu não é capaz de entender. Mas o verbo pode se fazer carne viva. E se carne ele for, pode ser que os doutores o queiram matar. Então, é bom tomar cuidado com a letra, porque a sua ausência é falta e o excesso não garante nenhum acerto.”

O menino olhou o velho como se nada entendesse, mas com muita atenção.

“A pedra que mata o gigante, por exemplo, pode ser Deus. Mas ele pode ser o próprio gigante, também… Daí é bom tomar cuidado com as pedras.”

O menino olhou as pedrinhas espalhadas no chão e acenou positivamente com a cabeça.

“Tenho como certo que Deus pode ser borboleta. Já me disseram que um dia ele foi pombo. Se foi pombo, de certo pode ser borboleta, ou vagalume, ou louva-a-deus. Alguns já o viram no fogo. Outros falaram que ele é um homem com jeito de anjo. Ele muitas vezes anda com fome pela rua. Faz de conta que não tem o que beber e onde dormir. Por isso, menino, é preciso ter respeito. Tudo que é vivo merece respeito e tudo o que parece morto também. Posto que ninguém sabe medir a intensidade da vida das coisas.”

E o mendigo se levantou devagar. Seu rosto sulcado de sóis se contrapôs ao sol daquele poente. Seu rosto e o sol eram feitos de uma só luz.

E assim o velho retomou o seu itinerário sonolento, lento, letárgico, sob o olhar deslumbrado do menino engraxate. Passos à frente, volta-se ao menino e se despede:

“E não esqueça a gratidão por tudo o que a vida lhe dá, sem dizer se é bom ou se é mal, pois nunca se sabe se é no riso ou na tristeza, na feiura o na beleza, que o seu Deus mais está. Minha gratidão pela água, meu filho.”

O garoto sorriu, assertivo. A beleza dessas palavras morreria com ele, pois era um pobre e analfabeto menino mudo. Mas dentro de si bem que poderiam germinar. E ele olhou as pedrinhas do chão como mistérios. Os passarinhos são mistério, a água, as estrelas: tudo pode ser Deus! Pois Deus sempre está onde e quando nos puder encantar.

FONTEOriginariamente publicada no site Conti Outra
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Nara Rúbia Ribeiro
Advogada, poeta, escritora, idealizadora e responsável pela edição geral da Revista Pazes.



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