Estava qui tentando escrever uma crônica sobre esse assunto, quando me lembrei deum amigo muito especial: o Sérgio.

Ele era um senhor alto, forte, esquizofrênico. Vestia quatro ou cinco roupas sobrepostas, nunca tomava banho e colocava uns quatro bonés, um sobre o outro. Quando em surto, tinha uma força descomunal e a sua fúria era devastadora.

Quase todos os dias, enquanto eu esperava o ônibus para ir para a faculdade, o Sérgio ia até mim para puxar conversa:
“Irmã, a juíza quer tirar meu INS e não vou deixar não.” Tecia longas histórias sobre o promotor que armava algo contra ele, falava os números da placas de quem parou em frente ao fórum, dizia os horários em que os carros paravam e teminava levando os dedos aos olhos “tô de olho”.

Quando o Sérgio era levado à Goiânia para ficar internado na capital, eu me sentia desolada. Camisa de força, injeções… Gritos!

Uma vez ele me disse: “Irmã, só tem uma coisa boa lá em Goiânia. Lá os menos doentes ajudam os outros. Sabe, irmã, ajudo muita gente.” Dizia orgulhoso de si.

Quando sofri a primeira grave desilusão amorosa, ninguém notou a minha dor, menos ele, o Sérgio:

“A irmã, não fica brava com o Sérgio, não. O Sérgio sabe das coisas. Vejo no seu rosto que seu coração tá doendo. Mas a irmã sabe que a irmã tem que ajudar muita gente. O mundo é igual a clínica. A gente sabe que dói, mas tá aqui pra ajudar.”

Nos próximos dias ele rondou a minha casa, no horário em que eu chegava da faculdade.

Perguntei: – Sérgio, você por acaso está me seguindo?

E o Sérgio: – A irmã tá falando igual doutora. Está estudando errado irmã, não era pra fazer esse Direito, não. A irmã veio foi pra cuidar de gente que nem o Sérgio, porque a irmã entende a gente. Mas fica tranquila, irmã. A gente as vezes não sabe quem machuca e quem cuida da gente. O Sérgio sempre vai cuidar da irmã.

Há alguns anos o Sérgio partiu para o mundo lá de cima. Hoje, ao tentar escrever uma crônica sobre saúde mental, Deus! me veio uma saudade tão grande do Sérgio!

Sérgio, você disse que eu deveria cuidar de pessoas e disse que iria cuidar de mim. Sérgio, diga-me como, amigo!
Sérgio, cuida de mim…

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Nara Rúbia Ribeiro

Poeta em tempo integral.



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