Indicação de Filme

Vimos antes da estreia: o filme mais aguardado de 2025 chega Ă  Netflix e entrega muito mais do que promete

Tem suspense que te prende pela charada. E tem suspense que te pega pelo clima: aquele desconforto que vai crescendo, as pessoas se olhando torto, e a sensação de que qualquer “certeza” pode cair em dois segundos.

É exatamente nessa segunda categoria que entra “Vivo ou Morto: Um MistĂ©rio Knives Out” (tĂ­tulo brasileiro de “Wake Up Dead Man: A Knives Out Mystery”).

Rian Johnson volta ao tabuleiro com Daniel Craig como Benoit Blanc e coloca a investigação dentro de um lugar onde culpa e reputação valem mais do que prova material: uma paróquia pequena no interior do estado de Nova York.

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Logo na Sexta-Feira Santa, a histĂłria jĂĄ pisa no acelerador. Durante a cerimĂŽnia, o monsenhor Jefferson Wicks (Josh Brolin) some por instantes e Ă© encontrado morto num depĂłsito ao lado do pĂșlpito — esfaqueado pelas costas com uma lĂąmina improvisada a partir de um enfeite em forma de cabeça de diabo.

O detalhe maldoso: esse mesmo adorno tem ligação direta com Jud Duplenticy, um padre jovem (e ex-boxeador) recĂ©m-chegado, vivido por Josh O’Connor. De cara, a cidade ganha uma explicação pronta, fĂĄcil de repetir e Ăłtima para encerrar o assunto.

Antes do crime, o roteiro faz questão de deixar a tensão já no limite. Jud não aparece como “santo” nem como caricatura de encrenca: ele carrega um passado feio no ringue, incluindo uma morte acidental numa luta, e chega ao novo posto depois de perder a cabeça e agredir um diácono. Isso divide a comunidade.

Uma parte vĂȘ nele alguĂ©m tentando se reerguer; outra enxerga um risco ambulante. Do outro lado, Wicks Ă© o tipo de lĂ­der que governa no grito — e tem uma histĂłria familiar que explica por que a igreja virou um lugar de cobrança constante, com pouca empatia e muita regra.

O conflito entre os dois nĂŁo fica restrito a briga de personalidade. A famĂ­lia Wicks tem pendĂȘncias antigas que continuam “mandando” na parĂłquia: promessa de herança, dinheiro desaparecido, e um sĂ­mbolo central que nunca foi recolocado depois de um episĂłdio de ruptura.

O filme usa esse passado como motor de ressentimentos reais: o pĂșlpito vira palco de recados atravessados, o templo vai esvaziando, e os fiĂ©is mais rĂ­gidos se agarram ainda mais ao discurso do monsenhor — o tipo de cenĂĄrio perfeito para alguĂ©m fazer algo extremo e depois se esconder atrĂĄs da moral.

Quando Benoit Blanc entra em cena, a investigação muda de tom. A chefe de polícia Geraldine Scott (Mila Kunis) chama Blanc não porque acredita em “milagre”, mas porque entende o tamanho do estrago político e social que a morte de um monsenhor pode causar — principalmente com um crime cheio de teatro e com a cidade pronta para condenar o suspeito mais óbvio.

Blanc, por sua vez, percebe rĂĄpido que Jud serve melhor como aliado (e bĂșssola dentro daquele ambiente) do que como culpado de prateleira.

A partir daĂ­, o filme vira uma excursĂŁo pelos pontos sensĂ­veis da comunidade. Eles passam pelo cemitĂ©rio inclinado, pelo mausolĂ©u da famĂ­lia Wicks, pelo bar de onde o enfeite foi levado e pelas casas de quem “manda” nos bastidores.

É nessa ronda que aparecem os suspeitos com peso: Martha Delacroix (Glenn Close), administradora da parĂłquia com cara de quem sabe demais; Samson Holt (Thomas Haden Church), o zelador que ouve tudo; Nat Sharp (Jeremy Renner), mĂ©dico influente; Vera Draven e o filho Cy, com ambiçÔes que nĂŁo combinam com humildade; Simone Vivane (Cailee Spaeny), ex-violoncelista marcada por perdas; e Lee Ross (Andrew Scott), escritor que parece estar sempre anotando mais do que deveria.

Cada conversa entrega uma peça, mas tambĂ©m cria uma versĂŁo conveniente — e o filme se diverte mostrando como versĂ”es convenientes viram “verdade” em cidade pequena.

O caso, claro, nĂŁo para no primeiro corpo. A herança sumida, acordos antigos e lealdades compradas começam a se encaixar de um jeito perigoso, e a violĂȘncia volta a aparecer quando a investigação encosta em gente poderosa.

Johnson mantĂ©m a estrutura de quebra-cabeça, com reconstituiçÔes e revelaçÔes por etapas, sĂł que desta vez ele deixa Blanc trombar em algo que foge do controle: existe um momento em que o detetive admite que viu coisas que nĂŁo consegue explicar direito — inclusive a suspeita inquietante de que Wicks teria sido visto “depois” do que era possĂ­vel.

Isso não vira bagunça gratuita; funciona como freio dramåtico e då uma camada extra ao tema central: crença, culpa e o uso estratégico de narrativas para manter ordem.

Visualmente, a igreja vira personagem. A fotografia de Steve Yedlin trabalha luz filtrada por vitrais com um ar quase frio, como se tudo ali estivesse sob exame. Corredores apertados esticam conversas desconfortĂĄveis, e a ausĂȘncia de um sĂ­mbolo principal pesa no enquadramento como provocação silenciosa.

LĂĄ fora, o cemitĂ©rio e o mausolĂ©u colocado “acima” reforçam a hierarquia que a famĂ­lia Wicks tentou manter atĂ© no terreno. A trilha de Nathan Johnson evita o Ăłbvio: em vez de sublinhar revelaçÔes com barulho, ela segura a mĂŁo e deixa o silĂȘncio fazer a parte mais cruel.

TambĂ©m ajuda o jeito como o filme foi apresentado antes de chegar ao streaming. Ele passou por um circuito de festivais e sessĂ”es especiais (com debates, exibiçÔes fechadas e prĂ©-estreias em cidades grandes), criando aquele tipo de burburinho que mistura “evento” com “mistĂ©rio que ninguĂ©m quer estragar”.

Agora, com a estreia na Netflix neste fim de semana, dĂĄ para entender por que a expectativa foi alimentada: Ă© um Knives Out com gosto de thriller mais tenso, mais moralmente espinhoso e com um Blanc menos confortĂĄvel do que de costume.

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Gabriel Pietro

Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lå pra cå, jå escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.

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