Existem objetos que parecem ter sido fabricados especificamente para confundir nossos olhos, embora tenham surgido sem qualquer intenção. É o caso desta batata: algumas saliências, manchas na casca e um formato um tanto peculiar foram suficientes para transformar um tubérculo esquecido sobre uma bancada em uma pequena disputa visual na internet.
Olhe para a foto durante alguns segundos.
Há quem identifique imediatamente um gatinho agachado, com o corpo arredondado e as patas recolhidas. Outras pessoas enxergam um coelho deitado, com algumas protuberâncias fazendo o papel de orelhas e patas.
Também existe um terceiro grupo, talvez menos disposto a colaborar com a brincadeira: olha para tudo aquilo e continua vendo simplesmente uma batata.
Nas redes sociais, imagens desse tipo costumam vir acompanhadas de uma explicação bastante atraente: quem enxerga determinado animal estaria usando mais o hemisfério direito do cérebro, enquanto quem identifica outro recorreria principalmente ao esquerdo.
A história é divertida. Como teste neurológico, porém, ela tem um pequeno inconveniente: não funciona assim.
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O cérebro humano não recebe uma fotografia pronta do ambiente. Os olhos captam informações como contornos, contrastes, profundidade, luz e cor, enquanto diferentes áreas cerebrais trabalham para organizar esses elementos rapidamente.
Ao encontrar uma forma incomum, o cérebro tenta compará-la com padrões já conhecidos.
Na batata da foto, pequenas protuberâncias podem ser interpretadas como patas, focinho ou orelhas. A posição do objeto também ajuda. Dependendo de qual detalhe chama sua atenção primeiro, a figura inteira pode passar a parecer um animal.
É por isso que duas pessoas conseguem observar exatamente a mesma fotografia e descrever figuras diferentes sem que nenhuma delas esteja deliberadamente forçando a interpretação.
Algo semelhante acontece quando alguém encontra rostos em tomadas, carros, nuvens ou fachadas de casas.
Esse fenômeno é conhecido como pareidolia, a tendência de reconhecer formas familiares em estímulos que originalmente não foram produzidos para representar aquilo. Estudos sobre pareidolia facial mostram que objetos com determinadas configurações podem acionar mecanismos cerebrais ligados ao reconhecimento de rostos com enorme rapidez.
Na batata, a situação é um pouco diferente porque as pessoas conseguem construir mentalmente a silhueta de animais inteiros. Ainda assim, o princípio é parecido: o cérebro encontra pistas visuais incompletas e tenta organizá-las em algo reconhecível.
Existe uma base científica real por trás da divisão dos hemisférios, mas ela acabou bastante simplificada na cultura popular.
Certas funções apresentam maior lateralização cerebral. A linguagem, por exemplo, costuma envolver de maneira mais acentuada regiões do hemisfério esquerdo em muitas pessoas, enquanto determinadas tarefas espaciais podem apresentar maior participação do hemisfério direito.
O problema começa quando isso é transformado na ideia de que existem pessoas essencialmente “de cérebro esquerdo”, supostamente mais lógicas, e outras “de cérebro direito”, consideradas mais criativas ou intuitivas.
Uma análise de imagens cerebrais de 1.011 pessoas, publicada na revista PLOS ONE, investigou justamente essa hipótese e não encontrou evidências de que os indivíduos possam ser classificados dessa maneira com base em uma predominância global de um hemisfério.
A American Psychological Association também destaca que os resultados desse estudo não sustentam a divisão popular das pessoas entre “right-brained” e “left-brained”.
Portanto, enxergar um coelho primeiro não demonstra que seu hemisfério esquerdo domine sua maneira de pensar. Ver o gatinho tampouco revela predominância do hemisfério direito.
Seu cérebro, para desapontamento dos testes de personalidade feitos com frutas, legumes e ilusões de internet, prefere trabalhar de maneira bem mais integrada.
A resposta pode estar em detalhes muito mais simples.
Uma pessoa pode interpretar as duas saliências superiores como pequenas patas e, a partir disso, construir mentalmente a figura de um gato encolhido. Outra pode concentrar a atenção no formato alongado da batata e reorganizar os mesmos volumes até enxergar um coelho.
Experiências anteriores também ajudam a orientar esse reconhecimento.
Quem convive com gatos, por exemplo, conhece de memória inúmeras posições corporais do animal. Um conjunto bastante limitado de pistas pode ser suficiente para provocar a associação.
Além disso, depois que alguém diz “tem um gato nessa imagem”, fica muito mais fácil encontrá-lo. A expectativa modifica aquilo que procuramos visualmente. Pesquisas sobre pareidolia indicam justamente a participação tanto das características presentes na imagem quanto das expectativas do observador na percepção de formas familiares.
A fotografia ainda produziu interpretações que escapam completamente da disputa entre gato e coelho.
Algumas pessoas afirmaram enxergar Gloria, a hipopótamo de Madagascar. O corpo arredondado da batata e as pequenas elevações na parte frontal ajudam bastante nessa leitura.
Depois que alguém aponta essa possibilidade, aliás, pode ficar difícil deixar de vê-la.
Esse é justamente um dos aspectos curiosos dessas imagens ambíguas: a percepção pode mudar sem que um único pixel seja alterado. O objeto continua na mesma posição, com os mesmos contornos e as mesmas manchas. O que muda é a hipótese que o cérebro utiliza para interpretar aquelas formas.
Agora volte à fotografia e observe principalmente as protuberâncias próximas à parte frontal.
Você continua vendo a mesma coisa que viu na primeira vez: um gatinho, um coelho, a Gloria… ou finalmente decidiu defender a hipótese mais sensata de todas e aceitar que aquilo é uma batata muito esquisita?
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