Por alguns minutos, uma câmera clandestina registrou o rosto e a voz de uma jovem norte-coreana de 23 anos. As imagens atravessaram as fronteiras do país e chegaram a emissoras internacionais. Ainda assim, uma informação básica nunca pôde ser confirmada: seu nome.
A gravação foi realizada em junho de 2010, nos arredores de uma cidade da província de Pyongan do Sul, na Coreia do Norte. A jovem apareceu ajoelhada em um campo, recolhendo plantas que pretendia usar como alimento. Estava muito magra, vestia roupas desgastadas e falava com dificuldade.
Ao ser questionada sobre o que fazia, explicou que a grama não seria destinada a animais. Ela própria iria comê-la. Em seguida, informou que tinha 23 anos.
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O responsável pela filmagem usava o pseudônimo Kim Dong-cheol e colaborava com a Rimjin-gang, publicação ligada à organização japonesa ASIAPRESS. O projeto utilizava repórteres norte-coreanos com nomes falsos para registrar clandestinamente o cotidiano dentro do país e enviar o material ao exterior.
Esse tipo de trabalho envolvia riscos sérios. Além de filmar sem autorização, os colaboradores precisavam retirar as gravações da Coreia do Norte sem chamar a atenção das autoridades. A identidade dos participantes era mantida em sigilo para protegê-los.
Durante a conversa, a jovem contou que havia perdido os pais recentemente. Sem casa, passou a dormir nas ruas e a procurar comida em campos, estradas e mercados.
Sua voz estava tão fraca que Kim não conseguiu compreender seu nome. Por isso, mesmo depois de as imagens circularem em outros países, ela continuou sendo identificada somente pela idade e pela situação em que foi encontrada.
O vídeo foi retirado clandestinamente do território norte-coreano e divulgado fora do país. A cena chamou atenção por mostrar uma realidade bem diferente das imagens oficiais apresentadas pelo governo: uma mulher jovem, órfã e sem moradia procurando vegetação para não passar o dia sem comer.
A gravação foi reproduzida por veículos estrangeiros e se tornou um dos registros mais conhecidos publicados pela Rimjin-gang naquele período. A própria ASIAPRESS voltou a divulgar o caso posteriormente, quando recebeu novas informações sobre o destino da jovem.
Em outubro de 2010, cerca de quatro meses após o encontro, jornalistas receberam a informação de que a jovem havia sido encontrada morta em um campo durante o período da colheita.
Segundo o relato publicado pela ASIAPRESS, o corpo permaneceu no local por vários dias. Nenhum parente apareceu para identificá-la ou reivindicar seus restos.
O Daily NK informou na época que ela teria morrido de fome. Como o acesso de jornalistas independentes à Coreia do Norte era extremamente restrito, porém, não houve uma investigação externa capaz de esclarecer todas as circunstâncias da morte. Por isso, os detalhes devem ser apresentados como informações repassadas às redes de jornalistas, e não como resultado de uma apuração independente realizada no local.
A câmera registrou sua idade, sua voz e alguns fragmentos de sua vida. Seu nome, entretanto, nunca chegou a ser compreendido — e a jovem ficou conhecida pelo mundo somente como a mulher de 23 anos que procurava grama para comer.
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