Há filmes que envelhecem porque pertencem demais ao tempo em que foram feitos. A Primeira Noite de um Homem seguiu pelo caminho oposto. Lançado em 1967, em meio à guerra do Vietnã, à contracultura e a uma geração cada vez mais desconfiada das expectativas impostas pelos pais, o longa dirigido por Mike Nichols transformou o desconforto de um jovem sem rumo em uma das comédias dramáticas mais reconhecíveis do cinema americano.
Décadas depois, algumas de suas cenas continuam sendo analisadas quadro a quadro. E esse escrutínio revela um detalhe divertido: por trás da precisão visual, das atuações marcantes e da trilha de Simon & Garfunkel, há erros de continuidade, improvisos inesperados e decisões de bastidores que acabaram se tornando parte da própria identidade do filme.
Hoje é difícil separar Dustin Hoffman de Benjamin Braddock, mas sua escolha esteve longe de ser óbvia.
Hoffman tinha 29 anos durante as filmagens e ainda não era um grande nome de Hollywood. Seu físico e sua presença também fugiam do padrão de protagonista masculino que os estúdios costumavam privilegiar naquele período.
A situação ficou quase cômica quando ele foi ao escritório do produtor Joseph E. Levine para uma entrevista. Levine teria confundido Hoffman com um limpador de janelas. O ator entrou na brincadeira e começou a limpar uma delas antes de revelar quem era.
O episódio combina estranhamente bem com Benjamin: deslocado, constrangido e aparentemente no lugar errado.
Antes da escalação de Hoffman, Robert Redford fez teste para interpretar Benjamin. A ideia, porém, não convenceu Mike Nichols.
O problema não era talento. Nichols achava que Redford tinha dificuldade para transmitir o tipo de insegurança social que definia o personagem. O diretor chegou a questionar se alguém com a aparência e a confiança de Redford conseguiria parecer um rapaz que não sabia como lidar com mulheres.
Hoffman, por outro lado, transformou justamente essa falta de desenvoltura no motor cômico da atuação.
O filme consolidou Mrs. Robinson como a mulher madura que seduz um rapaz bem mais jovem, mas a diferença real de idade entre os atores era surpreendentemente pequena.
Anne Bancroft tinha cerca de 35 anos durante a produção, enquanto Dustin Hoffman estava com 29. Ou seja: havia aproximadamente seis anos entre os dois.
Katharine Ross, intérprete de Elaine, filha de Mrs. Robinson, tinha 27 anos. Bancroft era somente cerca de oito anos mais velha do que a atriz que interpretava sua filha.
A maquiagem, o figurino, o comportamento dos personagens e a aparência juvenil de Hoffman fizeram boa parte desse trabalho narrativo.
Uma das histórias mais peculiares dos bastidores aconteceu durante o primeiro encontro de Benjamin e Mrs. Robinson no quarto de hotel.
Durante um ensaio, Hoffman improvisou um gesto físico com Bancroft sem avisá-la previamente. O movimento fez Mike Nichols começar a rir fora de cena.
Hoffman também perdeu a compostura. Em vez de interromper imediatamente, virou-se para a parede e bateu a cabeça nela tentando controlar o riso. Nichols gostou tanto da reação que decidiu aproveitar aquele momento no corte final.
O que parece ser mais uma manifestação do nervosismo de Benjamin era, em parte, Dustin Hoffman tentando não rir diante das câmeras.
Leia também: Eles foram dois grandes nomes dos anos 70. Quarenta e três anos depois, continuam juntos
Entre os erros de continuidade mais fáceis de perceber está uma mudança bastante brusca de iluminação.
Benjamin leva Mrs. Robinson para casa durante a noite. Porém, quando os personagens atravessam a residência em direção à área próxima à estufa, há luz natural intensa entrando no ambiente, como se a cena tivesse sido filmada durante a tarde.
O IMDb registra a inconsistência entre os erros de continuidade do longa.
É o tipo de detalhe que pode passar completamente despercebido durante décadas e depois se tornar impossível de ignorar.
Outra pequena falha acontece quando Mrs. Robinson recebe Benjamin em casa.
Ela liga o aparelho de som antes de os dois subirem. Mais tarde, Benjamin percebe a chegada de Mr. Robinson e corre de volta para o andar inferior.
A música, porém, desapareceu.
Nada indica que alguém tenha desligado o aparelho. Trata-se de mais um pequeno deslize de continuidade registrado entre os erros conhecidos do filme.
Hollywood já dominava muitas coisas em 1967. Aparentemente, lembrar que alguém havia ligado o estéreo ainda era uma ciência em desenvolvimento.
Durante o encontro entre Benjamin e Mrs. Robinson no bar do hotel, há um erro ainda mais discreto.
Benjamin tenta chamar um garçom que passa por eles. No reflexo da parede de vidro ao fundo, entretanto, é possível observar o funcionário parar logo depois de sair do enquadramento e aguardar o momento certo para voltar à cena.
Ou seja, por alguns segundos, o reflexo permite enxergar o mecanismo da filmagem funcionando por trás da ação.
É um daqueles erros que provavelmente ninguém notaria em uma sessão comum de cinema, mas que se torna bastante evidente depois que alguém aponta onde olhar.
Há outra inconsistência curiosa na famosa sequência em que Benjamin recebe equipamento de mergulho como presente dos pais.
Em determinado momento, seu pai conversa com ele junto à porta da cozinha. Pouco depois, quando a porta é aberta, Benjamin aparece a uma distância considerável, já usando máscara, capuz e regulador.
A mudança de posição entre os planos não combina com o espaço ou com o tempo transcorrido na cena.
Como o momento é propositalmente estranho e claustrofóbico, o erro acaba ficando escondido dentro da própria excentricidade da sequência.
Anne Bancroft havia estabelecido limites claros em relação à nudez durante as filmagens.
Por isso, determinados planos associados a Mrs. Robinson precisaram recorrer a uma dublê de corpo. Essa solução permitiu a Nichols manter a composição visual planejada sem exigir que Bancroft realizasse tomadas com as quais não se sentia confortável.
O resultado é particularmente interessante porque algumas das imagens mais lembradas do filme foram construídas por montagem, enquadramento e substituição corporal, e não simplesmente pela presença da atriz em todos os planos.
Antes de Anne Bancroft assumir o papel, outras atrizes chegaram a ser consideradas.
Mike Nichols tinha interesse em Jeanne Moreau, enquanto Doris Day recebeu uma proposta e recusou. Segundo relatos associados à produção, a quantidade de nudez envolvida no papel entrou em conflito com aquilo que Day estava disposta a fazer em cena.
A escolha de Bancroft acabou definindo tanto a personagem que hoje é difícil imaginar outra atriz naquela posição.
As canções de Simon & Garfunkel não nasceram inicialmente como um conceito fechado para acompanhar o filme.
Durante a montagem, Nichols e o editor Sam O’Steen utilizaram músicas da dupla como referência de ritmo. O encaixe funcionou tão bem que elas permaneceram.
Esse procedimento ajudou a criar uma das associações mais famosas entre cinema e música popular dos anos 1960.
A própria “Mrs. Robinson”, que se tornaria inseparável do filme, passou por um desenvolvimento peculiar e não havia sido originalmente concebida exatamente da forma como seria conhecida depois.
Nem todas as aparentes estranhezas de A Primeira Noite de um Homem são erros.
Em uma sequência próxima ao final, Benjamin corre em direção à câmera, mas parece avançar muito pouco. O efeito foi criado com uma lente teleobjetiva longa, que comprime visualmente a distância.
O corpo corre, mas o cenário parece praticamente imóvel.
É uma maneira simples e extremamente eficiente de transformar a situação psicológica de Benjamin em imagem: ele se esforça desesperadamente enquanto parece continuar no mesmo lugar.
Essa precisão torna os pequenos erros espalhados pelo longa ainda mais curiosos. A Primeira Noite de um Homem pode ter algumas falhas de continuidade e acidentes preservados na montagem, mas boa parte daquilo que parece estranho foi cuidadosamente planejado. E, no caso da cena do hotel, até aquilo que saiu do controle acabou ajudando a criar uma das reações mais características de Benjamin Braddock.
Leia também: Lembra dele? Estrela de Os Goonies mudou de carreira e o visual hoje é irreconhecível!
Leia também: Ela diz ter amado a cirurgia plástica, mas o antes e depois deixou a internet dividida
Compartilhe o post com seus amigos! 😉
A psicologia costuma indicar que traumas severos na juventude empurram a pessoa para o isolamento…
Perguntar a própria idade para desconhecidos na internet parece um daqueles testes inocentes que duram…
Há carreiras em Hollywood que terminam por falta de talento, por uma sequência de escolhas…
Fotos tiradas poucas horas depois de uma cirurgia plástica raramente mostram aquilo que o paciente…
Algumas imagens são feitas para serem observadas duas vezes. Na primeira, o cérebro organiza rapidamente…
Durante décadas, bastava Bruce Willis aparecer em cena para que o público esperasse perseguições, tiros…