Poucos dias antes do réveillon de 1985, Matthew e Gunnar Nelson tinham um plano bastante simples: encontrar o pai no Alabama e seguir com ele em seu avião particular até Dallas, onde Ricky Nelson faria uma apresentação na noite de Ano-Novo. Os dois jovens não tinham como saber que uma mudança repentina nesse roteiro acabaria separando-os de uma tragédia.
Ricky telefonou para os filhos e disse que havia mudado de ideia. Em vez de acompanhá-lo naquele voo, eles deveriam viajar separadamente e encontrá-lo diretamente em Dallas.
A decisão parece corriqueira quando vista isoladamente. Depois do que aconteceu em 31 de dezembro de 1985, porém, ganhou outro significado para a família Nelson.
Matthew e Gunnar deveriam estar dentro do avião que pegou fogo naquela tarde.
Ricky Nelson nasceu Eric Hilliard Nelson em 8 de maio de 1940, em Teaneck, Nova Jersey. A televisão fazia parte de sua vida muito antes de ele decidir seguir carreira como cantor.
Seus pais, Ozzie Nelson e Harriet Hilliard, comandavam “The Adventures of Ozzie and Harriet”, programa que começou no rádio e posteriormente migrou para a televisão. Ricky e seu irmão mais velho, David, passaram a participar da produção ainda crianças.
O programa acabaria transformando a própria família Nelson em personagens conhecidos de milhões de americanos.
Ricky, porém, encontrou um caminho próprio.
Em 1957, aos 17 anos, ele cantou em um episódio da série familiar e pouco depois lançou sua gravação de “I’m Walkin’”. A música chegou às primeiras posições das paradas americanas e ajudou a transformar aquele adolescente já conhecido da televisão em uma das grandes figuras da primeira geração do rock and roll.
Vieram sucessos como “Poor Little Fool”, “Travelin’ Man”, “It’s Late”, “Fools Rush In” e, anos depois, “Garden Party”.
A exposição televisiva tinha uma vantagem considerável. Nelson podia apresentar músicas diante de uma audiência enorme e, em seguida, lançá-las comercialmente.
Nas décadas de 1950 e 1960, seu rosto tornou-se tão familiar quanto sua voz.
Em 1963, Ricky se casou com Kristin Harmon, integrante de outra família bastante conhecida em Hollywood. O casal teve quatro filhos: Tracy, os gêmeos Matthew e Gunnar e o caçula Sam.
Matthew e Gunnar nasceram em setembro de 1967.
Com o tempo, os dois também começaram a demonstrar interesse pela música. O vínculo artístico com o pai se tornaria especialmente importante pouco antes da morte de Ricky.
Em dezembro de 1985, os gêmeos fizeram seu primeiro show com ingressos esgotados. Ricky assistiu discretamente à apresentação.
Segundo Matthew e Gunnar contariam muitos anos depois, em 27 de dezembro tiveram uma das conversas mais marcantes que já haviam tido com o pai.
Ricky disse que os amava como filhos, algo que naturalmente já sabiam. Mas acrescentou uma frase diferente: depois de vê-los tocar, também os admirava como colegas músicos.
Quatro dias depois, ele morreria.
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Há uma ironia desconfortável em outra parte dessa história.
Apesar de passar boa parte da vida viajando por causa de shows, Ricky Nelson tinha muito medo de voar. Seu irmão David contou anos depois que o cantor chegou a fazer psicoterapia para tentar lidar melhor com esse receio.
Mesmo assim, Ricky havia adquirido um Douglas DC-3, avião de uma geração anterior que já pertencera ao músico Jerry Lee Lewis.
Ele gostava da aeronave e chegou a chamá-la de “Flying Bus”, algo como “ônibus voador”, por sua robustez e velocidade relativamente baixa.
Ter um avião próprio também facilitava a complicada logística das apresentações. Ricky podia cumprir compromissos em cidades diferentes sem depender exclusivamente dos horários de companhias aéreas comerciais.
Mas o DC-3 já apresentava problemas.
Documentos posteriormente divulgados pelos investigadores mostraram que, no voo fatal, a tripulação teve dificuldades repetidas com o sistema de aquecimento da cabine. O copiloto chegou a ficar preocupado com o equipamento e, em determinado momento, não queria ligá-lo novamente.
Matthew e Gunnar planejavam viajar comercialmente até o Alabama e então embarcar no DC-3 do pai para fazer com ele o restante do trajeto até Dallas.
Pouco antes da viagem, Ricky cancelou esse plano.
Os filhos contaram que o pai telefonou dizendo que não queria mais que eles fossem naquele avião. Os dois deveriam encontrá-lo diretamente em Dallas. A filha Tracy Nelson também confirmou posteriormente que os irmãos estavam programados para acompanhar Ricky e que ele mudou de ideia no último momento.
Não há como afirmar que Ricky soubesse que algo aconteceria com a aeronave. A história por vezes foi descrita como uma “premonição”, mas essa interpretação pertence ao campo das lembranças familiares, não a algo que possa ser demonstrado.
O fato concreto é mais impressionante por si só: Matthew e Gunnar estariam naquele voo caso o pai não tivesse alterado os planos.
Em 31 de dezembro de 1985, Ricky Nelson embarcou no DC-3 em Guntersville, Alabama.
Também estavam no avião sua companheira, Helen Blair, e integrantes de sua banda.
Durante o trecho final da viagem em direção a Dallas, surgiu fumaça na cabine de passageiros. A situação piorou rapidamente.
O piloto Bradley Rank e o copiloto Kenneth Ferguson tentaram realizar um pouso de emergência nas proximidades de De Kalb, no nordeste do Texas.
O avião conseguiu chegar ao solo, mas o incêndio já havia tomado a parte destinada aos passageiros.
Os dois pilotos sobreviveram. Ricky Nelson, Helen Blair e cinco integrantes da banda morreram.
Nelson tinha 45 anos.
Nos dias seguintes ao acidente surgiu uma versão particularmente prejudicial à imagem do cantor: a de que o incêndio teria começado enquanto passageiros faziam uso de cocaína por meio de um processo que utilizava substâncias inflamáveis e uma chama.
Exames toxicológicos de fato encontraram vestígios de drogas no organismo de Nelson e de alguns outros passageiros. Isso foi suficiente para alimentar manchetes e especulações durante a investigação.
Mas havia um problema considerável nessa narrativa.
Os investigadores não encontraram evidências de que alguém estivesse usando drogas daquela maneira durante o voo. Também não foram encontrados objetos relacionados a essa prática nos destroços.
Em 1987, após uma investigação que durou cerca de 18 meses, o National Transportation Safety Board (NTSB) afastou essa hipótese.
A apuração concluiu que o incêndio começou na região do aquecedor da cabine. Um defeito no próprio sistema de aquecimento ou um problema elétrico naquela área estavam entre as explicações mais prováveis.
O NTSB, porém, não conseguiu estabelecer definitivamente qual componente iniciou o fogo.
Décadas mais tarde, Matthew e Gunnar voltariam ao assunto. Em seu livro “What Happened to Your Hair?”, os irmãos procuraram combater a antiga associação entre a morte do pai e os rumores envolvendo drogas. Eles também explicaram que durante muito tempo evitaram falar publicamente sobre determinados detalhes do acidente por causa das disputas jurídicas relacionadas às famílias das outras vítimas.
Depois da morte de Ricky, os dois irmãos continuaram tocando juntos.
Matthew e Gunnar formaram a banda Nelson, que alcançou grande sucesso no início dos anos 1990. O álbum de estreia dos irmãos, After the Rain, ganhou disco de platina nos Estados Unidos.
Para eles, porém, a ligação com a carreira do pai nunca desapareceu.
Os irmãos passaram também a realizar apresentações dedicadas à obra de Ricky, mantendo vivas músicas que ouviram desde crianças.
Há um detalhe especialmente forte quando se coloca toda a história em perspectiva.
Quatro dias antes do acidente, Ricky havia assistido aos filhos tocando e dito que finalmente os enxergava também como seus pares na música.
Pouco depois, tomou a decisão que os retirou do voo que terminaria em incêndio no Texas.
Matthew e Gunnar perderam o pai naquela noite de Ano-Novo. Mas uma simples mudança de planos feita pelo próprio Ricky impediu que a família Nelson perdesse também dois de seus filhos no mesmo avião.
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