Há decisões médicas tomadas depois que uma doença aparece. Outras surgem diante da possibilidade de ela chegar anos mais tarde. Para Stephanie Germino, essa possibilidade tinha nome, histórico familiar e um resultado positivo em um exame genético.
Ela tinha 27 anos quando descobriu ser portadora de uma alteração no gene BRCA1, associado a um risco elevado de desenvolvimento de câncer de mama e de ovário. Stephanie não tinha câncer, mas conhecia de perto as consequências dessa mutação: sua mãe também havia herdado a alteração genética e sua avó enfrentara o câncer de mama duas vezes.
Diante do resultado, ela escolheu uma medida definitiva. Em outubro de 2021, submeteu-se a uma mastectomia bilateral preventiva, cirurgia que remove o tecido mamário antes do surgimento de um tumor.
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A decisão pode parecer extrema para quem olha apenas para a ausência de um diagnóstico. Os números, porém, ajudam a explicar por que esse tipo de procedimento é considerado por algumas mulheres.
Segundo o Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, mais de 60% das mulheres que herdam determinadas variantes prejudiciais dos genes BRCA1 ou BRCA2 desenvolverão câncer de mama ao longo da vida. Na população feminina em geral, a estimativa fica em torno de 13%.
A mastectomia bilateral preventiva pode reduzir em pelo menos 95% o risco de câncer de mama entre mulheres portadoras de variantes prejudiciais de BRCA1 ou BRCA2. Ainda assim, a proteção não chega a 100%, já que é impossível retirar absolutamente todo o tecido mamário durante uma cirurgia.
Antes do procedimento, Stephanie levou em consideração uma questão importante de sua vida pessoal: a maternidade.
Ela amamentou o filho, Josiah, antes de realizar a cirurgia. Sua companheira, Diana, acompanhou o processo. Aos 28 anos, Stephanie fez a mastectomia profilática e tomou outra decisão que acabaria se tornando parte importante de sua história pública: não realizar a reconstrução das mamas.
Sua mãe havia escolhido reconstruí-las após uma cirurgia semelhante. Stephanie preferiu uma técnica conhecida como aesthetic flat closure, ou fechamento estético plano, na qual o tórax é reconstruído cirurgicamente para permanecer plano, sem colocação de implantes. Em entrevistas posteriores, ela passou a falar abertamente sobre essa escolha e sobre a vida após a cirurgia.
Ela também decidiu não esconder as cicatrizes.
Essa exposição transformou Stephanie em uma voz bastante conhecida entre mulheres que passaram por mastectomias ou convivem com alterações genéticas relacionadas ao câncer. Nas redes sociais, adotou o nome Theebooblessbabe e começou a publicar vídeos sobre roupas, autoestima, cicatrizes, prevenção e o cotidiano depois da retirada das mamas. Seu perfil continua ativo e dedicado principalmente à defesa e à informação sobre mastectomias preventivas.
BRCA1 e BRCA2 são genes presentes normalmente no organismo e participam do reparo de danos no DNA. O problema ocorre quando uma pessoa herda determinadas variantes prejudiciais nesses genes, reduzindo a capacidade das células de corrigir alguns danos genéticos e aumentando a probabilidade de certos tipos de câncer.
A alteração pode ser transmitida tanto pelo lado materno quanto pelo paterno. Quando existe um histórico familiar expressivo de câncer de mama ou de ovário, médicos podem recomendar aconselhamento genético para avaliar se a realização de testes faz sentido.
Um resultado positivo também não significa que o câncer necessariamente aparecerá.
Ele indica um risco muito superior ao encontrado na população em geral. Por isso, pessoas portadoras dessas variantes podem discutir diferentes estratégias com especialistas.
Entre as possibilidades estão acompanhamento mais intenso, com exames iniciados em idades mais jovens e uso de ressonância magnética junto à mamografia; medicamentos para redução de risco em situações específicas; e cirurgias preventivas, como a mastectomia bilateral.
A escolha depende de fatores como idade, planos de ter filhos, histórico familiar, risco individual, condições de saúde e preferência da própria paciente. O Instituto Nacional do Câncer americano recomenda que uma decisão desse porte seja discutida com profissionais especializados e, quando possível, acompanhada de aconselhamento genético.
Uma das questões que Stephanie passou a discutir publicamente foi justamente algo que muitas pacientes desconheciam antes de enfrentar uma mastectomia: reconstruir as mamas não é obrigatório.
Ela contou posteriormente que recebeu críticas pela decisão de permanecer com o tórax plano e também passou a enfrentar comentários ofensivos nas redes sociais. Parte das reações estava ligada à aparência de seu corpo depois da cirurgia e à maneira aberta com que mostrava as cicatrizes.
Em vez de retirar essas imagens de circulação, Stephanie fez delas parte de seu trabalho de conscientização.
Em entrevistas e publicações, passou a usar o termo “previvor”, empregado por algumas pessoas geneticamente predispostas ao câncer que realizam medidas preventivas antes de desenvolver a doença. Seu objetivo declarado é mostrar que mulheres submetidas a uma mastectomia possuem alternativas diferentes para reconstrução, aparência e recuperação do próprio corpo.
Anos depois da cirurgia, Stephanie mantém o perfil @theebooblessbabe e continua falando sobre a experiência de viver sem as mamas. O que começou com um exame genético dentro de uma família marcada pelo câncer acabou levando a uma escolha feita antes que qualquer tumor fosse encontrado: retirar o tecido onde seu risco de desenvolver a doença era particularmente alto.
Stephanie Germino Survived breast cancer at 27 and her maternal grandmother won breast cancer after two surgeries pic.twitter.com/jmq4EAL6b4
— Junta Miles (@JuntaMiles2) August 18, 2026
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