Artes

O encanto de Moonlight – Sob a Luz do Luar – ganhador do Oscar de melhor filme 2017

Moonlight – Sob a Luz do Luar (Moonlight – 2016)

Octavio Caruso

Acordar sabendo que a sociedade o rejeita de diversas formas, excluído por ser pobre e negro, agredido na escola por ser introvertido, internamente incapaz de compreender sua homossexualidade, obrigado a medir cada gesto, silenciar impulsos, sem poder contar com a estabilidade emocional de uma mãe (Naomie Harris) entregue ao vício em crack, esse é o cotidiano do pequeno Chiron.

A sua única figura paterna, um traficante de drogas que o encontra arredio, fugindo do ataque de seus colegas, alguém que enxerga nos olhos da criança a pureza que outrora guiava suas ações, antes do mundo o bestializar. O homem, vivido impecavelmente por Mahershala Ali, tem consciência de que faz parte da engrenagem que está destruindo o garoto, a culpa o humaniza, evitando inteligentemente o estereótipo.

Ambientado na década de oitenta, o primeiro ato do filme, roteirizado e dirigido por Barry Jenkins, adaptado de uma peça inédita de Tarell Alvin McCraney, explora a trepidante formação psicológica do protagonista, a resistência da gentileza natural perante a brutalidade excessiva do sistema em que ele está inserido. “Little” (pequeno), apelido genérico, evidência de sua irrelevância enquanto indivíduo, reflexo do desinteresse do outro em memorizar seu nome. Ao humilhar o filho no auge da dependência química, a câmera subjetiva no ponto de vista do menino nega o som da ofensa, apenas a reação dele importa, a mente não quer aceitar a realidade deprimente, a palavra utilizada só tem poder quando o receptor acusa sua existência. Nesse estágio inicial o leitmotiv é a recusa como estratégia de defesa.

Conheça o site Devo Tudo ao Cinema

No segundo ato, intitulado “Chiron”, encontramos o protagonista atravessando o difícil período da adolescência, o momento em que todos tentamos firmar o caráter e vencer nossos medos, por conseguinte, ele não é definido mais por um apelido, o rapaz tenta encontrar uma forma de enfrentar os obstáculos sem abandonar totalmente sua essência. Os abusos na escola, local que deveria simbolizar proteção, acabaram se tornando mais intensos, a degradação física e mental da mãe alcança um nível insuportável, o universo conspirava para que ele fosse abatido irreversivelmente, porém, na areia da praia e sob a luz do luar, acompanhado de um amigo, ele reúne coragem para agir, a repressão de anos é finalmente subjugada. Como o interesse da obra não é provocar catarse emocional, o que a reduziria ao molde batido dos romances LGBT, Jenkins filma essa vitória pessoal às costas dos rapazes, ele não intenciona simploriamente rotular sentimentos nem estirar bandeiras. Chiron, encarando pela primeira vez os olhos de sua imagem no espelho, sofre uma terrível traição, uma atitude que quebra seu espírito.

Quando o encontramos novamente no terceiro ato, vários anos depois, ele abraçou a couraça da mentira, esculpiu seu corpo e bloqueou sua mente, um novo homem que sobrevive no submundo do crime, “Black”, um personagem fictício nomeado a partir de um apelido dado na infância pelo seu antigo amigo. A sociedade bateu tão forte que acabou vencendo, ele já nem acusa a dor dos golpes, o silêncio alcança sua expressividade mais amargurada. A elegância com que o filme encaminha a história para seu desfecho é impressionante, sempre coerente no tom, salientando poeticamente o foco narrativo na difícil reconstrução psicológica do protagonista, vivido brilhantemente por Alex R. Hibbert (Little), Ashton Sanders (Chiron) e Trevante Rhodes (Black).

“Moonlight: Sob a Luz do Luar” encanta sem apelar para qualquer clichê, mérito raro, creio que será o único filme dentre os indicados ao Oscar desse ano que continuará relevante artisticamente no futuro.

Postado por Octavio Caruso

Octavio Caruso

Escritor, crítico de cinema, ator, roteirista e cineasta, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema).

Recent Posts

De doente a deslumbrante: a sobrevivente da poliomielite que se tornou um ícone de Hollywood

Antes de se tornar uma das figuras mais reconhecíveis dos grandes musicais da MGM, Cyd…

1 hora ago

Sua mãe a internou em uma instituição, onde ela foi obrigada a limpar banheiros… hoje, ela é uma multimilionária de Hollywood

Aos sete anos, Drew Barrymore já tinha um rosto reconhecido por milhões de pessoas. Aos…

21 horas ago

Durante seis semanas, ela fingiu ser filha dele. Só após o funeral descobriu por que ele a escolheu

Há encontros que parecem acontecer por acaso até que alguém revele que o acaso, na…

22 horas ago

A maioria das pessoas passa a vida inteira sem saber o que realmente significam as linhas das toalhas

Há objetos que usamos durante anos sem dedicar a eles mais do que alguns segundos…

22 horas ago

‘A mão de Deus’ aparece misteriosamente em ultrassonografia após mãe rezar pela saúde do bebê

Para algumas famílias, uma ultrassonografia é um daqueles exames em que cada detalhe da tela…

22 horas ago

‘A mandíbula do pai e os lábios da mãe’: o dramático novo visual de Shiloh Jolie, aos 19 anos, rouba a cena

Durante boa parte da infância e da adolescência, Shiloh Jolie apareceu em público principalmente ao…

1 dia ago