Antes de se tornar uma das figuras mais reconhecíveis dos grandes musicais da MGM, Cyd Charisse precisou aprender a confiar justamente na parte do corpo que, anos depois, faria dela uma estrela: as pernas.
Ainda criança, ela enfrentou a poliomielite, doença que poderia ter comprometido permanentemente seus movimentos. A dança surgiu primeiro como uma maneira de fortalecer a musculatura. O que começou quase como uma necessidade física acabou definindo sua vida profissional e levando aquela menina do Texas aos palcos do balé europeu e, mais tarde, às telas de Hollywood.
Cyd Charisse nasceu com o nome de Tula Ellice Finklea, em Amarillo, no Texas. Durante a infância, contraiu poliomielite e ficou fisicamente debilitada. Seus pais passaram a incentivá-la a fazer aulas de balé como forma de fortalecer o corpo e recuperar a musculatura afetada pela doença.
A estratégia funcionou muito além do que alguém poderia prever.
As aulas despertaram um interesse intenso pela dança, e a jovem rapidamente demonstrou habilidade suficiente para transformar aquele exercício de recuperação em formação profissional. Ainda adolescente, passou a estudar com professores importantes e acabou integrando companhias ligadas ao Ballet Russe, apresentando-se inclusive fora dos Estados Unidos.
Durante essa fase, chegou a trabalhar sob nomes artísticos como Felia Sidorova e Maria Istomina.
O nome pelo qual ficaria conhecida surgiria algum tempo depois. O apelido “Sid” vinha da infância, atribuído por um irmão que tinha dificuldade para pronunciar “Sis”, abreviação de sister. Em Hollywood, a grafia acabou modificada para Cyd, enquanto Charisse veio de seu primeiro marido, o bailarino e professor Nico Charisse.
Cyd não cresceu planejando ser estrela de cinema. Sua formação era voltada principalmente ao balé, mas a indústria cinematográfica americana dos anos 1940 estava particularmente interessada em artistas capazes de unir técnica de dança e presença diante das câmeras.
Ela começou aparecendo em pequenos números e papéis ligados à dança. Um de seus primeiros trabalhos importantes foi em Something to Shout About, lançado em 1943. Outros trabalhos semelhantes se seguiram até que a MGM percebeu que havia ali alguém que poderia ocupar um espaço bem maior.
Em 1946, ela apareceu em Ziegfeld Follies. A participação contribuiu para que recebesse um contrato de sete anos com a MGM, estúdio responsável por alguns dos musicais mais ambiciosos daquele período.
Durante alguns anos, porém, Cyd esteve perto do estrelato sem realmente alcançá-lo. Era escalada como bailarina, atriz coadjuvante ou presença especial em sequências musicais.
Até que uma participação relativamente curta mudou sua carreira.
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Em 1952, Cyd Charisse apareceu ao lado de Gene Kelly no longo número musical “Broadway Melody”, de Singin’ in the Rain, conhecido no Brasil como Cantando na Chuva.
Ela não precisava de diálogo.
Em uma das partes da sequência, surge com vestido verde, cabelo escuro e uma longa piteira, encarando Gene Kelly antes de iniciar uma coreografia carregada de tensão e precisão. Em determinado momento, mantém o chapéu dele equilibrado na ponta do pé.
Era uma participação relativamente pequena dentro do filme, mas difícil de ignorar.
A Turner Classic Movies descreve justamente esse momento como a passagem de Charisse de uma artista que permanecia nos arredores do estrelato para uma presença de primeiro escalão nos musicais da MGM.
A sequência exigiu bastante preparação. Parte do número utilizava um enorme tecido de seda movimentado por fortes correntes de ar produzidas no estúdio. Segundo a TCM, somente o segmento do “Broadway Ballet” levou cerca de um mês de ensaios e duas semanas de filmagens.
Curiosamente, Charisse praticamente roubou a atenção de uma das produções mais celebradas da história dos musicais sem dizer uma frase sequer.
O impacto de Cantando na Chuva abriu caminho para um papel muito maior no ano seguinte.
Em 1953, ela contracenou com Fred Astaire em The Band Wagon (A Roda da Fortuna), dirigido por Vincente Minnelli. Dessa vez, Cyd era uma das protagonistas.
Uma das cenas mais conhecidas coloca Charisse e Astaire dançando juntos em um parque durante a noite. A coreografia de “Dancing in the Dark” é quase o oposto de um número baseado em acrobacias ou velocidade: o efeito vem da precisão dos dois, dos pequenos movimentos e da sensação de que eles estão conversando sem falar.
Astaire tinha enorme respeito pela parceira. Uma frase atribuída a ele acabaria acompanhando Charisse durante décadas: depois de dançar com ela, dizia o ator, a pessoa permanecia “dançada”. O próprio National Endowment for the Arts recupera a declaração em sua biografia da artista.
Gene Kelly oferecia outro tipo de parceria.
Com ele, Cyd voltou a trabalhar em produções como Brigadoon (1954) e It’s Always Fair Weather (1955). Com Astaire, ainda faria Silk Stockings (1957).
Quando perguntada sobre quem preferia como parceiro, evitava transformar a resposta em competição. Para ela, Kelly e Astaire possuíam estilos completamente diferentes e compará-los seria como comparar coisas de naturezas distintas.
E ela provavelmente tinha autoridade para dizer isso. Pouquíssimas bailarinas tiveram a oportunidade de trabalhar em grandes produções com os dois.
Com a fama, as pernas de Cyd Charisse quase ganharam carreira própria.
A combinação de sua formação clássica com figurinos concebidos para destacar os movimentos transformou suas pernas em uma espécie de marca visual. A publicidade dos estúdios explorou isso intensamente.
O National Endowment for the Arts registra que, em 1952, ela chegou a aparecer nas notícias por causa de uma apólice de seguro de US$ 5 milhões para suas pernas. Relatos da época variam quanto aos valores divulgados, sinal de que a história também recebeu uma boa dose da máquina publicitária de Hollywood.
O detalhe curioso é que toda essa imagem havia sido construída por alguém que começara a dançar justamente porque uma doença havia fragilizado seu corpo.
No fim dos anos 1950 e início dos anos 1960, o tipo de musical grandioso produzido pelos estúdios começou a perder espaço. A carreira de Charisse inevitavelmente mudou junto.
Ela assumiu papéis dramáticos, apareceu em programas de televisão e passou a trabalhar também em espetáculos ao vivo.
Ao lado do segundo marido, o cantor Tony Martin, apresentou durante anos números de cabaré e shows em casas noturnas. Os dois haviam se casado em 1948 e permaneceriam juntos até a morte dela, seis décadas depois.
Charisse ainda encontrou espaço no teatro em uma idade na qual Hollywood provavelmente já a considerava parte de outra época. Em 1992, aos 70 anos, fez sua estreia na Broadway no musical Grand Hotel, interpretando uma bailarina russa mais velha.
Em 2006, dois anos antes de sua morte, Cyd Charisse recebeu uma das principais homenagens oficiais concedidas a artistas nos Estados Unidos: a National Medal of Arts.
A condecoração reconheceu uma carreira que já atravessava várias gerações de espectadores. A citação oficial a descreveu como um ícone americano que havia entretido milhões de pessoas com suas apresentações.
Cyd Charisse morreu em 17 de junho de 2008, aos 86 anos, no Cedars-Sinai Medical Center, em Los Angeles, após sofrer um aparente ataque cardíaco.
Para quem conhece sua história somente pelas fotografias cuidadosamente iluminadas dos anos 1950, existe uma ironia difícil de ignorar: aquela mulher celebrada por movimentos extremamente controlados, pelas pernas que a MGM transformou em atração e pela facilidade aparente diante das câmeras havia começado a dançar porque, quando criança, precisava recuperar a força perdida depois da poliomielite.
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