África, a de rios caudalosos, das selvas verdes e do ar limpo, fugia em direção a
um deserto carbonizado. O continente mágico e antigo chorava em silêncio.
Quando uma manta amarela e seca cobriu a vida, um grito de animal ferido, aterrador, se ouviu no mundo.
O velho narrador
Ninguém acreditava mais nas antigas lendas. Os narradores que se sentavam embaixo do baobá a desemaranhar longas histórias, protegidos pelas estrelas, já tinham partido quando a areia chegou.
As palavras estavam caladas.
Ninguém mais acreditava em um céu protetor. África era um enorme lençol amarelo. A areia, grão a grão, tinha construído um grande deserto. Interminável. Ninguém percebeu, ou ninguém quis se dar conta.
A desolação chegou em silêncio. Aconteceu quando os glaciais se esvaneceram em uma queixa interminável, quando os ursos e as baleias se converteram em recordação, quando as águias perderam o rumo.
O céu, cansado da torpeza da humanidade, se refugiou em outro céu, mais distante. Fugiu. Não podia mais proteger a terra.
O velho tinha visto as pessoas partirem, os mais jovens em direção ao norte, os mais fracos em direção à escuridão.
Sentiu uma nostalgia distante o invadir lentamente. O velho narrador, embaixo do último baobá, contou uma lenda antiga.
Nela, falava do nascimento das estrelas, da luz, do mundo… Mas não havia ninguém mais disposto a escutar um velho prosador. Olhou em torno, procurando algum ouvido. África, rio amarelo, estava rodeada de silêncio. Buscou uma estrela perdida, no céu só havia escuridão.
O velho apoiou as costas cansadas no tronco dolorido do baobá. Casca com casca. Pele rachada, alma dolorida.
A árvore da vida estremeceu. O vento dava rajadas contra a areia carbonizada. Tinha que partir. Sabia que tudo se acabava. O último baobá e a última voz da África iriam embora juntos. Abriu o punho. Trêmulo, contemplou a semente diminuta que havia guardado tanto tempo.A semente da esperança.
Olhou a árvore. Era o momento. Não se pode atrasar a retirada.
Separou a areia até chegar à terra. Virou a mão e, pela linha da vida, girou a semente até encontrar um sulco.
O baobá havia aberto a casca e do oculto coração brotou a água milagrosa. A árvore era a vida.
O velho voltou a fazer crescer baobás grandiosos como gigantes que beijavam as nuvens. Agora, sobre os escritórios, nos telhados, sobre as avenidas e os trens; nos beirais, sobre comércios, bancos e ministérios crescem trepadeiras coloridas. Embaixo delas, está escondida a destruição como uma lembrança dolorosa.
Entre os dedos tremeu a semente.
Diminuta e brilhante.
Nunca imaginou que sairia de lá um dragão alado,
uma sereia de ondulantes cabelos,
um sonho eterno de esperanças.
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Do livro “Contos Africanos”, de Ernesto Rodrigues Abade, Editora Callis.
Tradução de: “Cuentos africanos para dormir el miedo”, Tradução: Raquel Parrine
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