Texto de Rogério Fernandes Lemes
Desde que li “O pequeno príncipe” associei Antoine de Saint-Exupéry ao meu avô materno. Não sei o porquê dessa associação, mas nunca mais esqueci da estória e nem do meu avô.
Toda vez que lembro do pequeno príncipe sinto uma sensação estranha. Uma espécie de “poder criador”.
É como se levasse meu avô e sua realidade de vida para aquele deserto. Meu avô, com toda aquela calma, parece consertar o avião e assim sobrevoarmos as pradarias, os vales ou as planícies de um mundo só nosso, surreal.
Não conto a ninguém essa besteira que sinto ao associar meu avô materno à estória do pequeno príncipe. Primeiro porque acho que ela não é importante, do ponto de vista da Literatura. Mas então, lembro-me que a Literatura é, por definição, ficção, criação que nos remetem a sensações extra-sensoriais.
Em segundo lugar, por não acreditar em minha capacidade como autor. Me vejo impostor e, por esse motivo, não falo nada, apenas escrevo. Apenas o silêncio e minha sensação estranha de ver meu avô, um quase veterano da Segunda Guerra Mundial, consertando o avião de Saint-Exupéry somados ao ringir da caneta sobre o papel, ou dos estalos delicados das teclas do computador.
Como dizem as amigas da minha filha: “Cara, isso é muito louco”.
Sinceramente não entendo muito os adolescentes. Não sei se “muito louco” é uma deficiência cognitiva e intelectual da pouca idade a respeito das coisas ou se, realmente, essa sensação que sinto é algo muito louco.
De qualquer forma, quando meu avô materno faleceu senti que ele, de fato, havia consertado o avião. Só que ele foi sem mim.
Há quase três anos espero seu regresso. Nenhum sinal nos céus; nem um ronco de avião. Nada.
Hoje tudo faz sentido. A estória, o avião, o pequeno príncipe, meu avô e eu.
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