Mia Couto

“O bairro da minha infância” – poema de Mia Couto

Não são as criaturas que morrem.
É o inverso:
só morrem as coisas.

As criaturas não morrem
porque a si mesmas se fazem.

E quem de si nasce
à eternidade se condena.

Uma poeira de túmulo
me sufoca o passado
sempre que visito o meu velho bairro.

A casa morreu
no lugar onde nasci:
a minha infância
não tem mais onde dormir.

Mas eis que,
de um qualquer pátio,
me chegam silvestres risos
de meninos brincando.

Riem e soletram
as mesmas folias
com que já fui soberano
de castelos e quimeras.

Volto a tocar a parede fria
e sinto em mim o pulso
de quem para sempre vive.

A morte
é o impossível abraço da água.

© MIA COUTO
In Tradutor de chuvas, 2011

Revista Pazes

Uma revista a todos aqueles que acreditam que a verdadeira paz é plural. Àqueles que desejam Pazes!

Recent Posts

Em tempos de inteligência artificial, como preservar a autenticidade nas relações humanas?

Uma mensagem de aniversário, uma declaração de amor ou até um pedido de desculpas podem…

1 semana ago

Teste de percepção: Se você enxergou apenas o soldado, ainda faltam quatro rostos para encontrar nesta imagem

Uma ilustração antiga, com um soldado atravessando uma paisagem de árvores e pedras, esconde um…

1 semana ago

Teste de atenção: Você enxerga uma mulher ou um cavalo? Cada resposta leva a um ponto fraco

Uma ilustração em preto e branco está chamando a atenção por reunir duas figuras em…

1 semana ago

Como ela está hoje? Aos 17 anos, ela conquistou o topo das paradas; depois de brilhar no ABBA, escolheu viver longe dos holofotes

Antes de se tornar uma das vozes mais conhecidas da música pop, Agnetha Fältskog já…

2 semanas ago

Medicamentos de alto custo: o que fazer quando o SUS ou o plano de saúde nega o tratamento?

Como advogada que atua na defesa de pacientes contra negativas de planos de saúde, acompanho…

2 semanas ago

RELATO: Comprei uma casa na praia, mas meu filho planejava levar cerca de 30 parentes da esposa. Então, tomei esta decisão

Depois de trabalhar durante 45 anos como engenheiro civil, Alberto Ramírez, de 72 anos, decidiu…

2 semanas ago