Cinema

Lembra dele? O ator que foi cancelado por Hollywood e decidiu trocar a indústria por um propósito espiritual

Antes de virar “queridinho” de sites cristãos e alvo de críticas em colunas progressistas, Kirk Cameron era só o adolescente sorridente dos posters nos quartos dos anos 80.

Astro de “Growing Pains”, ele parecia destinado a seguir o caminho clássico de Hollywood: séries de sucesso, comédias no cinema, tapete vermelho.

Em vez disso, virou símbolo de um outro tipo de carreira – a do ator que troca o centro da indústria por produções de fé e passa a dizer que foi “encostado” pelo sistema por causa das suas convicções religiosas.

Do ídolo teen ao desconforto com o próprio estrelato

Kirk Cameron nasceu em 1970, na Califórnia, começou a atuar criança e, aos 15 anos, já era o Mike Seaver, protagonista de “Growing Pains”, sitcom que o transformou em ídolo adolescente, capa de revista e presença constante em programas de TV.

Além da série, fez filmes como “Like Father, Like Son” (1987) e “Listen to Me” (1989), consolidando o status de estrela em ascensão.

Enquanto o público via um garoto confiante e descolado, ele próprio dizia que encarava tudo “como trabalho”, não como identidade.

No fim dos anos 80, ainda no auge da série, começou a se afastar dos colegas de elenco e a limitar o tipo de roteiro que aceitava.

Foi o período em que, segundo o próprio, deixou de se declarar ateu e passou por uma conversão ao cristianismo evangélico.

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A virada de fé e o conflito com o padrão de Hollywood

Depois dessa mudança, Cameron passou a impor condições nas histórias de “Growing Pains”: não queria cenas consideradas “sensuais”, piadas de duplo sentido ou tramas que, na visão dele, afrontassem valores cristãos.

Relatos de bastidores dizem que essa guinada criou tensão com roteiristas e colegas, que sentiram o clima mudar nos últimos anos da série.

Com o fim da produção em 1992, ele ainda tentou seguir em séries mais tradicionais, como “Kirk” (1995–1997), mas a prioridade já era outra: usar a fama para evangelizar.

Aos poucos, as participações em grandes produções foram dando lugar a filmes de baixo orçamento com temática cristã e projetos ligados diretamente a ministérios evangélicos.

O nascimento de uma carreira “paralela” cristã

Nos anos 2000, Cameron se consolidou em um circuito próprio, voltado ao público de fé.

Ele estrelou a franquia “Left Behind”, baseada em romances de ficção apocalíptica, e protagonizou “Fireproof” (2008), drama sobre casamento e fé que se tornou um sucesso expressivo dentro do nicho gospel no cinema norte-americano.

Paralelamente, se uniu ao evangelista Ray Comfort na criação do ministério “The Way of the Master”, que produz programa de TV, materiais de treinamento e conteúdos de evangelismo de rua.

A proposta é ensinar cristãos a pregarem de forma direta em espaços públicos, algo que o próprio Cameron costuma fazer em vídeos e eventos.

Quando começa o papo de “cancelado por Hollywood”

Do lado de veículos conservadores, a narrativa é clara: Cameron teria sido “cancelado” por não ceder à agenda liberal de Hollywood e por defender publicamente posições alinhadas ao cristianismo mais tradicional.

Esse discurso ganhou força em 2012, quando ele foi entrevistado por Piers Morgan, na CNN, e descreveu a homossexualidade como “antinatural” e “destrutiva para muitos fundamentos da civilização”, além de rejeitar o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

As falas geraram forte reação de grupos LGBT+ e críticas de colegas de profissão.

Depois desse episódio, parte da imprensa passou a tratá-lo como figura polêmica, e ele se aproximou ainda mais do público cristão conservador.

Em entrevista ao The Hollywood Reporter, anos depois, Cameron afirmou que não se incomoda se algumas pessoas em Hollywood o detestam por causa da fé e das suas opiniões, reforçando a ideia de que escolheu conscientemente ficar fora do circuito mais progressista da indústria.

“Saving Christmas” e o choque com a crítica

Em 2014, Cameron lançou “Saving Christmas”, comédia natalina cristã que virou um caso clássico de choque entre nicho religioso e crítica especializada.

O filme, que ele mesmo idealizou, foi massacrado em sites de cinema, ficou com 0% no Rotten Tomatoes e chegou a ocupar o topo da lista de piores filmes da história no IMDb.

Incomodado com a recepção, o ator pediu nas redes sociais que seus seguidores “invadissem” o Rotten Tomatoes para levantar a nota, o que provocou ainda mais críticas e piadas.

Enquanto boa parte da crítica via o filme como propaganda mal feita, muitos fãs cristãos defenderam a produção como alternativa àquilo que consideram um Natal esvaziado de conteúdo religioso.

Esse tipo de reação reforçou, entre o público que já simpatizava com ele, a sensação de que Hollywood e a crítica “mainstream” estariam dispostas a ridicularizar qualquer projeto abertamente cristão, o que alimenta o rótulo de “cancelado” que alguns portais conservadores usam ao falar do ator.

A vida atual: família, livros e circuito de fé

Fora das grandes produções, Kirk Cameron construiu uma carreira consistente dentro do ecossistema cristão. Ele segue atuando em filmes de fé, como “Lifemark” (2022), produz conteúdo para TV e streaming religioso e faz turnês com eventos de oração e palestras.

Também lançou livros voltados a famílias cristãs e ganhou manchetes recentes nos EUA ao tentar levar leituras de um livro infantil de temática bíblica para bibliotecas públicas, em resposta a eventos de leitura com drag queens.

Casado desde 1991 com a atriz Chelsea Noble, que contracenou com ele em “Growing Pains”, Cameron é pai de seis filhos (quatro deles adotados) e mantém o discurso de que trocou a busca por projetos “certos” em Hollywood por uma atuação mais alinhada, segundo ele, ao seu chamado espiritual.

Do lado de cá, a narrativa de que foi “cancelado” funciona como resumo de uma escolha: sair do centro da indústria tradicional e investir em um circuito paralelo de entretenimento cristão, onde segue sendo nome conhecido e bastante influente.

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Gabriel Pietro

Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.

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