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Ela partiu primeiro, mas o que ele fez dois dias depois mudou para sempre a história da cidade

Há fotografias antigas que exigem alguns segundos até serem compreendidas. Em uma delas, registrada no Texas no início do século XX, um casal aparece deitado lado a lado, enquanto filhos, netos e bisnetos se reúnem ao redor. Não se tratava de uma cerimônia de casamento nem de uma comemoração familiar. Thomas Jefferson Souder e Mary Ellen Souder estavam sendo velados juntos, dentro do mesmo caixão.

A imagem, preservada atualmente pelo Portal to Texas History, mantido pelas bibliotecas da Universidade do Norte do Texas, tornou-se o registro mais conhecido da despedida incomum. A descrição do acervo identifica o casal, informa que ambos morreram em julho de 1921 e situa a fotografia em Hurst, no condado de Tarrant.

Thomas e Mary Ellen haviam se casado em 20 de março de 1865, no condado de Lawrence, no estado de Indiana. Anos depois, por volta de 1874, mudaram-se com a família para o Texas, onde passaram a integrar a pequena comunidade rural de Hurst. Quando chegaram ao fim da vida, acumulavam aproximadamente 56 anos de casamento — número que os jornais da época arredondaram para seis décadas.

Ao longo desses anos, criaram oito filhos. Sete ainda estavam vivos em 1921. A família já incluía também 24 netos e 19 bisnetos, segundo uma reportagem publicada pelo jornal Fort Worth Star-Telegram logo após a morte do casal. Para quem acompanhava aquela casa havia décadas, Thomas e Mary formavam uma presença antiga e conhecida na região.

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Os dois adoeceram praticamente ao mesmo tempo

Em julho de 1921, Thomas e Mary ficaram doentes com poucos dias de diferença — ou, conforme os relatos da época, quase simultaneamente. Algumas reconstruções posteriores afirmam que eles contraíram disenteria, doença intestinal então conhecida popularmente como “flux”. O problema podia causar diarreia intensa, desidratação e morte, sobretudo em idosos e em uma época na qual o acesso a tratamentos eficazes era muito mais limitado.

A reportagem publicada em 16 de julho de 1921, porém, apresentou uma explicação menos específica: informou que ambos sofriam da mesma enfermidade e atribuiu as mortes às fragilidades relacionadas à idade avançada. Assim, embora a disenteria tenha se tornado parte recorrente das versões modernas da história, o diagnóstico exato não aparece de maneira inteiramente uniforme nos registros disponíveis.

Mary Ellen morreu primeiro, na quarta-feira, 13 de julho. Thomas permaneceu vivo por mais dois dias e faleceu na tarde de sexta-feira, 15 de julho, aos 80 anos. Ela tinha aproximadamente 76 anos, embora o catálogo histórico que guarda a fotografia registre sua idade como 78.

A diferença de datas gerou outra pequena confusão nas descrições atuais. Alguns arquivos dizem que eles morreram “com três dias de diferença”, provavelmente por contarem os dias 13, 14 e 15; na prática, o intervalo entre uma morte e outra foi de cerca de 48 horas.

Um único caixão para a última despedida

Após a morte de Thomas, a família decidiu que o casal também seria sepultado junto. Um caixão especial, largo o bastante para acomodar os dois corpos lado a lado, foi preparado para o funeral realizado no domingo seguinte.

O Fort Worth Star-Telegram levou o caso à primeira página com uma frase direta: nem mesmo a morte havia conseguido separar Jefferson e Mary Souder. O jornal destacou que os dois seriam enterrados no mesmo caixão, no pequeno cemitério de Hurst, depois de uma convivência que ultrapassava a duração média de uma vida naquele período.

Não há documentação conhecida que esclareça quem teve a ideia. Também não se sabe se Thomas e Mary haviam manifestado anteriormente o desejo de serem sepultados dessa forma ou se a escolha foi feita pelos filhos depois que ambos morreram.

A fotografia sugere que o velório foi organizado como uma grande despedida familiar. Thomas aparece de terno escuro. Mary, ao seu lado, usa um vestido claro. Em torno do caixão estão várias gerações da família Souder, reunidas diante da câmera em uma época na qual fotografias de pessoas falecidas ainda faziam parte dos rituais de luto.

Esses retratos eram mais comuns no século XIX e continuaram sendo produzidos nas primeiras décadas do século XX. Para muitas famílias, a fotografia mortuária funcionava como um último registro de alguém querido, principalmente quando fotografar momentos cotidianos ainda era caro e pouco acessível.

Uma notícia que atravessou mais de cem anos

Thomas e Mary foram enterrados no Arwine Cemetery, em Hurst. A sepultura recebeu uma lápide simples, sem qualquer indicação visível de que, sob ela, existe um caixão construído para duas pessoas.

A história dificilmente teria atravessado tantas décadas sem a fotografia. Digitalizada e incorporada ao acervo histórico do Texas, ela já foi consultada dezenas de milhares de vezes e continua circulando em páginas dedicadas a documentos antigos.

Com o passar do tempo, algumas versões transformaram a morte de Thomas em consequência direta da tristeza pela perda da esposa. É uma interpretação compreensível, mas os registros indicam que ele já estava doente quando Mary morreu. Não há evidência documental de que tenha falecido literalmente por causa do luto.

O que os documentos permitem afirmar é suficientemente marcante: depois de mais de meio século de casamento, os dois adoeceram juntos, morreram com cerca de 48 horas de diferença e foram velados e enterrados no mesmo caixão, cercados pela família que construíram ao longo de quase seis décadas.

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Gabriel Pietro

Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.

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