Em junho de 2021, eu me organizava para cumprir a primeira visita de campo durante a fase de coleta de dados primários para minha pesquisa do mestrado, na cidade de Uauá-BA. Meu primeiro destino: o bairro Mãe Rainha, local que abriga os invisíveis da cidade.
O encontro estava programado para acontecer dias depois do assassinato de um morador da comunidade, executado a tiros em praça pública em um dia onde a cidade adormeceu manchada de sangue.
Entre junho e novembro daquele mesmo ano, mais 4 jovens negros do Mãe Rainha foram executados à tiros. Não sei… mas sinto que existe um pacto implícito de silêncio na cidade sobre esses episódios de violência brutal.
Sejam lá quais as razões motivaram tantas mortes, o corpo negro é sempre um alvo fácil e mesmo quando abatido de forma bárbara, um corpo negro estirado ao chão não gera comoção.
Hoje eu peço licença para romper esse silêncio e dizer que ninguém, ninguém, merece morrer de forma tão brutal. E dizer ainda que a gente precisa começar a questionar esse sistema que empurra corpos negros para a vala da morte: seja por um tiro ou quando anulamos a existência desses corpos negando-lhes direitos e oportunidades.
Esse filme é sobre racismo, mas não só sobre isso. É também um manifesto contra aqueles que teimam em colocar a arte apenas nesse lugar de contemplação, porque do contrário, a arte é sobretudo lugar de provocação e incômodo.
Espero que o corpo negro tísico e terno do Gilson deambulando em meio às redes que representam as tramas e abismos que aprisionam tantos outros corpos negros nos concite a refletir sobre questões sociais tão pungentes que às vezes nosso olhar teima em não enxergar. E que ao mesmo tempo a imagem desse corpo-menino que se movimenta imaginando-se livre não seja só uma utopia.
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