Indicação de Filme

Esse romance entre Jennifer Lawrence e Bradley Cooper termina como tragédia shakespeariana

Alguns filmes optam por não suavizar nada. Eles não tentam confortar, oferecer saídas fáceis ou facilitar empatia. Serena, drama dirigido por Susanne Bier e estrelado por Jennifer Lawrence e Bradley Cooper, aposta justamente nesse desconforto.

Ignorado por boa parte do público e da crítica, o filme segue outro caminho: o da crueza. Não se preocupa em entregar redenções nem tornar seus personagens mais fáceis de engolir. E isso pode ser sua maior virtude.

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A história se passa nos anos 1930, período marcado por instabilidade econômica e social, e acompanha George Pemberton, um empresário do setor madeireiro, e Serena, sua nova esposa. A floresta onde George constrói seu império vira palco de ambição, desgaste emocional e decisões irreversíveis.

À medida que o negócio cresce, o que também se intensifica é a espiral de controle e obsessão que engole o casal. Não há romance idealizado aqui — há poder, medo, dominação e um afeto que se corrói lentamente.

Bradley Cooper entrega um George introspectivo e comedidamente inquieto, enquanto Jennifer Lawrence faz de Serena uma figura que provoca mais silêncio do que explicações.

Serena é o tipo de personagem que parece sempre esconder algo — mas nunca faz questão de revelar. Sua frieza não é ausência de emoção, mas estratégia de sobrevivência. Ela não chora: ela endurece. E o que a torna tão intensa é justamente essa recusa em se justificar.

A comparação com personagens trágicos da literatura surge de forma natural. Serena lembra figuras como Lady Macbeth, com sua determinação implacável e capacidade de tomar decisões brutais com olhar fixo.

Mas diferente da personagem de Shakespeare, a Serena de Lawrence não tem momentos de colapso. Ela não se arrepende. Não se explica. Apenas continua.

Visualmente, o filme também carrega esse peso. A floresta, que poderia oferecer algum abrigo, é apresentada como extensão da própria destruição. Os planos fechados, os olhares angustiados e o uso constante de cores sóbrias ajudam a reforçar a atmosfera sufocante. Nada escapa ao mal-estar: até a paisagem parece contaminada pelo desgaste interno dos personagens.

Apesar de ambientado durante uma crise econômica, Serena evita o discurso moralizador ou as narrativas redentoras. Não há esperança coletiva nem futuro promissor. O que há são desejos privados que atropelam tudo — pessoas, relações, possíveis filhos. Até o Brasil, citado como destino salvador, aparece como miragem conveniente, uma desculpa que empurra decisões impossíveis.

O filme não convida o espectador a torcer por ninguém. Não há vilões fáceis nem mocinhos óbvios. Serena e George são o reflexo de uma lógica onde só o poder importa. E nesse mundo, qualquer resquício de afeto parece fadado ao desaparecimento. O desconforto que o longa provoca não é defeito: é proposta.

Serena não tenta ser um filme inesquecível — mas também não quer ser esquecível. Ele existe no terreno onde quase nada floresce: o da frieza emocional. E se recusa a facilitar. O espectador não sai reconfortado, sai mexido. E esse impacto, por si só, já vale a experiência.

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Gabriel Pietro

Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.

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