Há filmes de época que se contentam em ser bonitos. “Adoráveis Mulheres”, de Greta Gerwig, disponível na Netflix, vai por outro caminho.
Em vez de tratar a obra de Louisa May Alcott como peça de museu, a diretora puxa a história para mais perto da vida real: trabalho mal pago, ambição, frustração, afeto, doença, escolhas difíceis e a sensação de que crescer quase sempre cobra um preço.
O resultado é um longa delicado, mas nunca enfeitado demais, com personagens que parecem respirar fora da tela.
Logo no início, Gerwig troca a ordem tradicional dos acontecimentos por uma narrativa que avança e recua no tempo.
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A decisão funciona muito bem porque evita aquele formato previsível de começo, meio e fim. Jo March aparece tentando vender seus textos em Nova York, enquanto as lembranças da casa da família em Massachusetts surgem como contraponto.
Esse vai e vem dá mais força ao filme, já que o passado deixa de ser simples recordação e passa a dialogar o tempo todo com as perdas, os desejos e as renúncias da vida adulta.
No centro de tudo está Jo, interpretada por Saoirse Ronan com energia, impaciência e uma inquietação que combina perfeitamente com a personagem. Ela escreve porque quer viver disso, quer ser lida, quer circular, quer decidir o próprio caminho.
O filme acerta ao mostrar que esse impulso criativo também esbarra em negociação, mercado e limitações bem concretas. Quando Jo se senta diante de um editor, a cena fala tanto sobre literatura quanto sobre sobrevivência.
Ao redor dela, as outras irmãs ganham espaço suficiente para não parecerem satélites. Meg olha para uma vida mais estável, ligada à ideia de formar uma casa e encontrar algum conforto material.
Beth ocupa um lugar mais silencioso, mas emocionalmente decisivo, porque sua fragilidade muda o clima da família inteira. Já Amy, vivida por Florence Pugh, talvez seja a personagem que mais cresce nesta versão.
Em Paris, ela deixa claro que talento e sensibilidade nem sempre bastam, e que fazer escolhas práticas também pode ser uma forma de inteligência.
Essa convivência entre as quatro irmãs é uma das grandes qualidades do longa. Greta Gerwig filma a casa March como um espaço cheio de barulho, conversa interrompida, irritações pequenas e carinho verdadeiro.
Não há idealização excessiva ali. Há calor humano, mas também aperto, limitação financeira e o tipo de intimidade que só existe entre pessoas que se amam e se conhecem demais. Isso dá ao filme uma textura muito particular, porque o afeto nunca aparece isolado da realidade.
Timothée Chalamet também ajuda a desequilibrar o lado mais romântico da trama. Seu Laurie não entra em cena como príncipe literário pronto para cumprir função sentimental. Ele é carismático, impulsivo, confuso e, em muitos momentos, emocionalmente perdido.
Essa leitura deixa a relação dele com Jo mais interessante e, depois, torna ainda mais complexa a ligação com Amy. O filme ganha justamente por não transformar amor em resposta simples.
Um dos pontos mais fortes da adaptação está na recusa de Jo em aceitar um destino que parecia socialmente natural. A escolha não surge como pose nem rebeldia vazia. Surge porque ela entende o tamanho do que pode perder caso aceite abrir mão de si.
A partir daí, “Adoráveis Mulheres” amplia sua força dramática ao colocar amor, trabalho, independência e dinheiro na mesma equação. É aí que o longa deixa de ser só uma adaptação prestigiada e passa a soar muito atual.
Também chama atenção a forma como Gerwig lida com a dor. O filme não força grandes explosões para comover.
Ele prefere mostrar como a ausência se instala devagar nos espaços da casa, nos silêncios, nas mudanças de rotina, no olhar de quem percebe que nada volta a ser exatamente como antes.
Algumas das cenas mais bonitas do longa nascem desse gesto contido, dessa emoção que não precisa gritar para atingir em cheio.
Visualmente, o filme encontra equilíbrio raro entre elegância e proximidade. Nova York, Concord e Paris aparecem como extensões naturais das personagens, e não como cartões-postais montados para impressionar.
O cuidado com figurino, fotografia e direção de arte está ali, claro, mas sempre a serviço da história. Greta Gerwig entende que beleza, quando bem usada, precisa aprofundar sentimento — não distrair dele.
Por isso “Adoráveis Mulheres” funciona tão bem para quem conhece o livro e também para quem nunca abriu a obra original. É um filme que respeita o texto de Louisa May Alcott, mas se recusa a ficar preso à reverência.
Em vez disso, entrega uma leitura viva, emocionalmente afiada e muito segura do que quer dizer. E quando chega ao seu momento mais bonito, daqueles que parecem suspender o tempo por alguns segundos, fica claro por que tanta gente saiu dessa versão com a sensação de ter visto algo realmente especial.
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