Chegar aos 100 anos já coloca uma pessoa em um grupo bastante restrito. Passar dos 110 é ainda mais raro. Maria Branyas Morera foi além: viveu 117 anos e 168 dias e, durante boa parte da velhice, manteve uma condição de saúde que chamou a atenção de pesquisadores.
Antes de morrer, em agosto de 2024, ela concordou em fornecer amostras biológicas para que cientistas tentassem entender uma pergunta difícil: como alguém pode envelhecer tanto sem acumular, na mesma proporção, as doenças associadas à idade?
O resultado dessa investigação foi publicado em 2025 na revista científica Cell Reports Medicine. A equipe, liderada pelo médico e pesquisador Manel Esteller, do Instituto de Pesquisa contra a Leucemia Josep Carreras e da Universidade de Barcelona, analisou genética, metabolismo, proteínas, microbioma intestinal e marcadores de envelhecimento de Maria. Trata-se de um dos estudos mais detalhados já realizados com uma pessoa supercentenária.
E, no meio de uma quantidade considerável de dados biológicos, apareceu um hábito bastante comum na rotina dela: comer iogurte todos os dias.
Maria nasceu em 4 de março de 1907, em San Francisco, nos Estados Unidos. Filha de espanhóis, mudou-se com a família para a Catalunha em 1915.
Sua vida atravessou duas guerras mundiais, a Guerra Civil Espanhola, a pandemia de gripe de 1918 e, mais de cem anos depois, a pandemia de Covid-19. Em 2020, aos 113 anos, ela contraiu o coronavírus e conseguiu se recuperar.
Depois da morte da freira francesa Lucile Randon, conhecida como irmã André, em janeiro de 2023, Maria passou a ser reconhecida como a pessoa viva mais velha do mundo. Permaneceu com o título até sua morte, em 19 de agosto de 2024.
A idade, porém, era somente uma parte do que intrigava os médicos.
Manel Esteller e sua equipe perceberam que alguns indicadores biológicos de Maria apresentavam características geralmente encontradas em pessoas consideravelmente mais jovens.
Em outras palavras, o calendário dizia 117 anos, mas várias partes de seu organismo pareciam ter envelhecido em outro ritmo.
Os pesquisadores coletaram amostras de sangue, saliva, urina e fezes e fizeram uma análise chamada “multiômica”. Em vez de observar somente o DNA, esse método cruza diferentes camadas de informações do organismo, como genoma, proteínas, metabolismo, alterações epigenéticas e microbiota intestinal.
O quadro encontrado era curioso.
Maria apresentava sinais celulares compatíveis com uma idade extremamente avançada. Ao mesmo tempo, possuía características associadas à proteção contra doenças comuns da velhice.
Seu perfil de gorduras no sangue, por exemplo, era particularmente favorável, com baixos níveis de triglicerídeos e de colesterol associado a maior risco cardiovascular.
O sistema imunológico também demonstrava pouca inflamação crônica. Isso importa porque níveis elevados de inflamação persistente são frequentemente associados ao envelhecimento e a diversas doenças relacionadas à idade.
A própria equipe descreveu o caso como uma espécie de “dualidade”: sinais claros de envelhecimento extremo conviviam com características biológicas relacionadas à longevidade saudável.
Parte dessa vantagem aparentemente veio de fábrica.
Os pesquisadores identificaram variantes genéticas associadas a características favoráveis para saúde cardiovascular, imunidade e funcionamento celular.
Esteller resumiu a influência da genética usando uma comparação simples: os genes seriam as cartas recebidas em uma partida de pôquer, enquanto hábitos e ambiente determinariam como essas cartas são jogadas ao longo da vida.
Isso também ajuda a explicar por que estudar uma pessoa como Maria interessa à ciência. Ninguém pode escolher os genes herdados dos pais, evidentemente, porque a humanidade ainda não resolveu esse detalhe administrativo, mas entender os mecanismos de proteção ligados a determinadas variantes genéticas pode abrir caminho para novas pesquisas sobre envelhecimento saudável.
O estudo, porém, encontrou algo que não dependia exclusivamente do DNA.
Quando os cientistas analisaram as bactérias presentes no intestino da supercentenária, encontraram um microbioma surpreendentemente saudável para sua idade.
Havia uma presença elevada de bactérias do gênero Bifidobacterium, normalmente associadas a efeitos benéficos para o intestino e para o sistema imunológico.
Segundo Esteller, o perfil intestinal de Maria lembrava o de pessoas muito mais jovens. Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores é que sua alimentação tenha contribuído para manter essa composição bacteriana.
É aí que entra o alimento que se tornou um dos pontos mais comentados da pesquisa.
Maria tinha o hábito de consumir três porções de iogurte diariamente, segundo informações divulgadas após o estudo.
Ela gostava especialmente dos produtos da cooperativa catalã La Fageda, que produz iogurtes com culturas bacterianas vivas.
O interesse dos pesquisadores está justamente na relação entre alimentos fermentados, bactérias probióticas e microbiota intestinal.
Iogurtes com culturas vivas podem favorecer determinados grupos de microrganismos benéficos no intestino. No caso de Maria, os cientistas consideram possível que seu consumo frequente tenha contribuído para a grande quantidade de bifidobactérias encontrada nas análises.
Mas existe uma distinção importante: o estudo não provou que comer iogurte faz alguém viver 117 anos.
Maria era uma única pessoa, e estudos de caso não permitem estabelecer uma relação direta de causa e efeito. Especialistas independentes também alertaram que descobertas obtidas em um indivíduo excepcional precisam ser comparadas posteriormente com grupos maiores antes que conclusões mais amplas sejam tiradas.
O iogurte aparece, portanto, como uma peça interessante de uma combinação bem maior.
Maria seguia uma dieta próxima do padrão mediterrâneo, com alimentos característicos da região onde viveu durante grande parte da vida.
Além dos iogurtes, sua rotina alimentar incluía azeite de oliva, frutas, peixes e outros alimentos pouco processados. Pela manhã, costumava consumir uma mistura composta por diferentes cereais.
Também não fumava, não consumia álcool regularmente e mantinha alguma atividade física.
Esses hábitos tornam impossível apontar um único responsável por seus 117 anos.
O que os pesquisadores encontraram foi uma interação entre genética favorável, metabolismo, microbioma e estilo de vida.
Outro aspecto analisado foram os telômeros, estruturas localizadas nas extremidades dos cromossomos.
Eles funcionam como uma espécie de proteção para o material genético e tendem a diminuir à medida que as células se dividem. Por isso, telômeros mais curtos costumam ser associados ao envelhecimento.
Maria tinha telômeros extremamente curtos, algo compatível com sua idade avançada.
Curiosamente, isso talvez tenha produzido um efeito favorável em outro ponto: células com telômeros muito reduzidos possuem menor capacidade de continuar se multiplicando, o que poderia dificultar a proliferação descontrolada característica de alguns tipos de câncer.
A descoberta reforça uma das ideias centrais do estudo: determinados mecanismos biológicos podem representar uma desvantagem em um aspecto e uma proteção em outro.
Maria apresentava limitações naturais de uma pessoa extremamente idosa, incluindo problemas de audição e mobilidade, mas não acumulava várias das doenças graves normalmente associadas ao envelhecimento avançado.
Foi justamente essa diferença que motivou os cientistas.
O trabalho sugere que envelhecer e adoecer não precisam ocorrer obrigatoriamente na mesma velocidade. No organismo de Maria, marcas profundas da passagem do tempo coexistiam com mecanismos que aparentemente protegiam coração, metabolismo, sistema imunológico e outros tecidos.
Sua vida cotidiana também permaneceu socialmente ativa durante muitos anos. Ela valorizava a convivência com familiares e amigos, contato com a natureza e uma rotina relativamente tranquila.
Maria teve três filhos, 11 netos e 13 bisnetos.
Nas redes sociais, que utilizava com ajuda da filha, chegou a resumir sua própria receita para viver bem: organização, tranquilidade, boas relações familiares, contato com a natureza e distância de situações e pessoas que lhe causassem desgaste.
A ciência encontrou explicações bem mais complicadas dentro de suas células. Mas, entre sequenciamento genético, proteínas, telômeros e bactérias intestinais, um hábito extremamente simples acabou ganhando espaço na investigação: os três iogurtes que Maria Branyas fazia questão de incluir todos os dias em sua alimentação.
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