Perdi o sono esta noite e isso, para mim, não é algo negativo. Amo a noite, a escuridão infinita pontilhada de estilhaços luzentes a que denominam “estrelas”. Gosto da noite e gosto de estar sozinha. É assim que me visito e percorro lugares bem bonitos, inavistáveis, cá dentro.
Na madrugada, fechei a janela e liguei o ar-condicionado. Enquanto fazia trabalhos quase mecânicos na internet, ouvi Bocelli e, depois, Renato Russo.
Ao ouvir “Scrivimi”, na voz de Renato, voltei a uma outra noite longínqua em que uma morte dolorosa me ocorreu. Em um tempo de prevalência dos correios, era só o endereço o que eu tinha.
Ele morava numa rua do outro lado do mundo, onde meu idioma era raro e o telefone, objeto para comunicações oficiais. Sua pele alva, seu sorriso pronto e um olhar de verde translúcido minimizaram os desencontros linguísticos. De concreto, ficou-nos, reciprocamente apenas uma rua, um número e os códigos postais.
Ele partiu e daí a uma semana escrevi a primeira carta a que se seguiram dias, noites, eternidades inteiras de espera. Nenhuma resposta. O silêncio ecoava entrecortando o meu peito e a minha mente arquitetava centos mil possibilidades. Até que, em dada noite, ao chegar em casa, encontro a carta. Não a dele, a minha carta devolvida pelos serviço de correios.
Uma tempestade caía lá fora e tíve ímpetos de banhar-me nela. Contive-me. Abri uma pequena fresta na janela e as lágrimas brotaram no mesmo ritmo que a chuva desmoronava dos céus. Entre quatro paredes, sempre é permitido chorar.
Enquanto o meu mundo ruía, como se por mágica ou encantamento, um beija-flor se aproximou a uns três metros janela. Ele, sim, banhava-se na chuva. Sob as luzes que brotavam da rua e os raios que cortavam o céu, suas penas luziam num colorido mágico que roubou o meu ar. Pleno, absoluto… fantástico.
Na manhã de hoje, ao lembrar-me desse episódio, abri a janeila a ouvir Renato Russo dizer “Allora scrivimi/ Servirà a sentirti meno fragile/ Quando nella gente troverai/ Solamente indifferenza/ Tu non ti dimenticare mai di me”… Uma chuva mansa e delicada fazia subir o cheiro da terra. A luz tênue da manhã, abafada por algumas nuvens, fez com que eu me sentisse aconchegada no colo do mundo.
Procurei o beija-flor e desta vez ele não veio. Decidi, então, registrá-lo aqui para que ele fosse eternizado para além do meu espírito, no pórtico desta crônica.
De resto, outras cartas me chegaram. Estas, sim, assinadas com caligrafia diversa da minha. A partir de então, Scrivimi, para mim, não é uma música: é uma “quase-oração”.
Nara Rúbia Ribeiro
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