Psicologia e Comportamento

“Receita de amor ao leite”, por Cris Guerra

“Tive uma tia que adorava comer melado com queijo. Quando sobrava melado, ela colocava mais queijo. E então sobrava queijo e ela completava com mais melado. Passava o dia todo se lambuzando. Em alguns momentos da vida, amor é que nem melado com queijo. E faz cafuné, reserva hotel pra viagem, olha estrela sem ter o que dizer. E treme as pernas, beija no ponto de ônibus, lembra de ontem e deixa escapar um sorriso no canto da boca. Ri sem saber de quê, passa horas sem notar, entre o silêncio e a falação. Amor é pura bobagem. É a alegria besta de quem não tem juízo.
Mas esse é só o começo. Um bom começo, o amor. Que acomete todo aquele que-nunca-comeu-melado e o engana com a sensação de que vai ser sempre assim.

Com o tempo o melado com queijo enjoa e você quer um bom copo de água gelada pra esquecer. É típico do amor pedir sempre mais – o que vem agora? Na verdade o amor é a isca para alguma coisa mais complicada que está começando ali. Seu desafio: tornar simples. Ou não: a meta é não deixar complicar, mas a essa altura já embananou tudo.

E nessas horas amor é como a história de João e Maria, em que eles conseguem achar o caminho de volta por causa dos farelos que deixaram cair ao longo do trajeto. Tem momentos em que o amor nos pede isso: retomar o rumo, achar de novo aquele fio fino e bobo que os levou até ali. E então ele passa a ser a caça aos farelinhos que, mesmo que não indiquem o caminho de volta, dão uma sensação familiar que acalenta o coração.

Aquele alívio de encontrar um porto seguro no meio do mar revolto e sem margem. Quando o gosto de sal na garganta suaviza um pouco e vem o sol.

Não pense você que pra fazer um pote bem doce de amor só se usa amor, bobagem sua: amor é só um dos ingredientes. Ou você acha que basta o chocolate para o brigadeiro? É preciso a manteiga e o leite condensado. E mexer o tempo todo, com muito carinho. Pra depois alcançar o ponto e comer de colher, com direito a gemidinhos de prazer por algo tão bobo e tão bom.

Amor é como brigadeiro de colher, que se come sem ver a hora de parar. Um troço besta, que não serve pra nada, mas nos tira do chão e devolve de novo, em pequenas decolagens e pousos divertidos. E que acaba dando sentido a essa correria louca que nos invade. Quando você chega em casa e vê o amor e se lembra: e não é que vale a pena?”

Revista Pazes

Uma revista a todos aqueles que acreditam que a verdadeira paz é plural. Àqueles que desejam Pazes!

Recent Posts

Em tempos de inteligência artificial, como preservar a autenticidade nas relações humanas?

Uma mensagem de aniversário, uma declaração de amor ou até um pedido de desculpas podem…

5 dias ago

Teste de percepção: Se você enxergou apenas o soldado, ainda faltam quatro rostos para encontrar nesta imagem

Uma ilustração antiga, com um soldado atravessando uma paisagem de árvores e pedras, esconde um…

1 semana ago

Teste de atenção: Você enxerga uma mulher ou um cavalo? Cada resposta leva a um ponto fraco

Uma ilustração em preto e branco está chamando a atenção por reunir duas figuras em…

1 semana ago

Como ela está hoje? Aos 17 anos, ela conquistou o topo das paradas; depois de brilhar no ABBA, escolheu viver longe dos holofotes

Antes de se tornar uma das vozes mais conhecidas da música pop, Agnetha Fältskog já…

1 semana ago

Medicamentos de alto custo: o que fazer quando o SUS ou o plano de saúde nega o tratamento?

Como advogada que atua na defesa de pacientes contra negativas de planos de saúde, acompanho…

1 semana ago

RELATO: Comprei uma casa na praia, mas meu filho planejava levar cerca de 30 parentes da esposa. Então, tomei esta decisão

Depois de trabalhar durante 45 anos como engenheiro civil, Alberto Ramírez, de 72 anos, decidiu…

2 semanas ago