Espiritualidade

“A gentileza é um efeito colateral da maturidade emocional”, por Pedro Kupfer

Há duas palavras para dizer gentileza em sânscrito, ambas ligadas à vida de Yoga: prasāda e anugraha. Prasāda é o termo mais freqüente usado na língua sânscrita para denotar graça ou gentileza. Essa palavra deriva da raiz sad, que significa “estabelecer-se” ou “sentar”.

Prasāda tem dois sentidos: por um lado, designa qualidades como gentileza, serenidade e bom-humor enquanto que, por outro, ainda significa calma, pureza e clareza. Se este termo está ligado sempre as manifestações mais harmoniosas da divindade, é por que a gentileza, a graça e as demais qualidades são de fato divinas.

A segunda maneira de dizer gentileza é anugraha. A Bhagavata Purāṇa usa repetidas vezes o termo anugraha como expressão da compaixão de Ishvara por todas as criaturas. Ādi Śaṅkarāchārya, ao longo de toda sua obra, igualmente menciona anugraha como a graça que possibilita a libertação, a saída do saṁsāra, o ciclo de nascimentos e mortes.

O oposto de anugraha é nigraha, que pode ser compreendido como obstrução para a liberdade, ou ficar preso aos condicionamentos. Seja qual for a palavra que usarmos em sânscrito para dizer gentileza, essa gentileza tem duas dimensões: a divina em relação ao humano, e a da convivência entre os humanos.

A gentileza, seja como prasāda, seja como anugraha, sempre aparece nos textos de Yoga ligada ao estado de graça produzido pela contemplação, o êxtase ou o arrebato devocional. Gentileza é aquilo que naturalmente surge quando a pessoa amadurece emocionalmente ou se aproxima desse estado de consciência que é mokṣa, a liberdade. Como todas as demais virtudes, a gentileza é um efeito colateral da maturidade emocional.

Nesse sentido, creio que a nossa sociedade poderia ser mais feliz se descobrisse o valor da gentileza. Para isso, todos nós devemos fazer a nossa parte no sentido de tornar o mundo um lugar mais agradável.
Assim, podemos pensar em nos colocar na pele dos demais e trabalhar pequenas atitudes, como ceder a passagem no trânsito, não querer sempre chegar em primeiro lugar, deixar os outros vencerem de vez em quando, e não sermos tão duros conosco.
Namaste!

Pedro Kupfer é um dos mais reconhecidos yogis da atualidade, um dos fundadores do site Yogapro.

Revista Pazes

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