Acolher as mudanças. Unir esforços. Minimizar dores e sofrimentos. Só há um caminho de libertação
Migrar é ir de um lugar para outro. Podem ser migrações partidárias (no passado eram chamados de vira-casaca e considerados seres interesseiros e egoístas), podem ser migrações religiosas (eram chamados de hereges e queimados em praça pública) e as migrações de povos a outros continentes (eram consideradas invasões, pois causavam violências econômicas, ambientais e sociais).
Nada jamais permanece o mesmo.
Por que as pessoas não ficam sempre no mesmo lugar? O que nos impele à mudança? Se o partido político a que me afilio deixa de atender a meus princípios, o que devo fazer? Se a empresa em que trabalho não corresponde aos valores éticos e princípios morais aos quais se compromete, o que faço? Se a instituição religiosa à qual pertenço estiver se desviando do caminho espiritual, como devo me comportar? Se o local onde nasci e cresci não atende aos meus anseios, para onde vou?
Muitos japoneses, que emigraram do Japão para outros países, acabaram perdendo o contato com sua ancestralidade nipônica. Quando seus netos e bisnetos retornaram como dekassekis para trabalhar no Japão, que, depois das guerras, se tornara país de Primeiro Mundo, não foram bem recebidos. “Nós ficamos aqui. Nós suportamos as dificuldades, a fome, o frio, a miséria. Trabalhamos muito e reerguemos o país. Vocês abandonaram a pátria que sofria. Foram egoístas. Agora querem receber as benesses de nossos esforços. Lamentável!”
Resistir é se manter firme, suportar, aguentar, não se entregar, não desistir. A resistência francesa foi uma força importantíssima na derrubada do nazismo na Europa. Quem eram aquelas pessoas que, com poucas armas e equipamentos, conseguiram se unir e resistir aos invasores cruéis?
Não é fácil resistir. Não é fácil migrar — quer de partido, de religião, de países. Hoje, multidões fogem do Norte da África — continente abusado e violentado por séculos de colonialismo — e levam consigo valores e crenças, capacidades e incapacidades que podem violentar e transformar civilizações europeias.
Há medo. Medo de quem atravessa em barquinhos frágeis. Medo de quem vê a massa de jovens, crianças, adultos e idosos chegando à procura de comida, casa, médico e trabalho num continente saturado.
Há sofrimento, luto, dor e perda — de ambos os lados. Há o encontro de culturas e diferenças. A Europa está se transformando. Os trens estão lotados. Os que conseguiram chegar estão sendo levados para lá e para cá. Algumas fronteiras se fecham. Cotas para cada país? Quantos refugiados você pode receber? É uma invasão essa migração?
Surpresos observamos. Como observamos de longe as enchentes no Japão, há menos de dez dias. Enchentes fortes em um país rico, bem cuidado, planejado e incapaz de impedir casas grandes e carros caros de serem destroçados. As caixas de mantimentos são colocadas com cuidado no Japão. São semelhantes às caixas que, em todos os países, são dadas aos necessitados. Educação e cultura diferentes — no Japão as pessoas não correm e não gritam pela comida. Agradecem. A fome é a mesma. O sofrimento é o mesmo — crianças desaparecidas nas águas barrentas e mortas nas praias.
Vida-morte é migração e resistência.
Estamos sempre indo e vindo, sem ir nem vir.
Penetrar a essência da mente. Compreender a transitoriedade. Acolher as mudanças. Unir esforços. Minimizar dores e sofrimentos. Só há um caminho de libertação — o caminho da compreensão clara e da compaixão ilimitada.
Somos a vida da Terra. Cuidemos. Migrando e resistindo criamos um novo mundo e um novo futuro, no presente. Mãos em prece.
Texto da Monja Coen publicado no jornal O Globo de 17/09/2015 e republicado em seu site pessoal.
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