Cinema

Você nunca mais lerá Mia Couto da mesma forma após descobrir o que ele realmente faz para criar suas obras mais incríveis

“Sou Autor do Meu Nome — Mia Couto” começa por um gesto simples: seguir um escritor. Mas o que fica, depois de assistir, não é a sensação de ter visto uma biografia organizada em datas, prêmios e explicações. O que fica é mais íntimo: a impressão de ter entrado por alguns minutos numa conversa em que a literatura nasce da rua, da infância, da fala popular, da memória colonial e de uma espécie de espanto teimoso diante da língua.

Dirigido e escrito por Solveig Nordlund, o documentário foi produzido em 2019, tem cerca de 52 minutos e acompanha a vida e a obra do escritor moçambicano Mia Couto.

A ficha da Cinemateca Portuguesa registra a produção da Real Ficção, em coprodução com a TorromFilm, além da primeira apresentação pública no IndieLisboa, em 5 de maio de 2019, e a primeira exibição televisiva na RTP 2, em 5 de julho de 2021. A própria RTP Play apresenta a obra de forma direta: um documentário que acompanha, “com olhar documental”, a vida e a obra do escritor moçambicano.

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O filme tem uma delicadeza boa: ele não tenta transformar Mia Couto em monumento. A câmera prefere deixá-lo caminhar, lembrar, rir, observar. E isso combina muito com ele.

Mia aparece menos como “grande escritor premiado” e mais como alguém que aprendeu a desconfiar das palavras prontas. Há uma frase dele, citada no material da Cinemateca, que parece resumir o coração do documentário: “Estou no lugar certo, no momento certo. O lugar onde a língua ainda não se sedimentou.”

Essa frase é bonita porque diz muito sobre Moçambique, mas também sobre o próprio Mia Couto. Ele está interessado na língua que ainda se mexe, que ainda aceita erro, invenção, sotaque, rua, surpresa.

O filme mostra isso: a escrita como consequência de uma escuta. Não por acaso, a análise da Cinemateca destaca que o documentário defende, por meio de Mia, uma linguagem verbal aberta à experimentação, atravessando a literatura, a poesia, a fala cotidiana e o português escrito.

O título, “Sou Autor do Meu Nome”, ganha peso quando o documentário passa pela infância do escritor na Beira. Mia Couto nasceu António Emílio Leite Couto, e o apelido “Mia” tem ligação com os gatos que rondavam a casa de seus pais.

A Cinemateca registra que o pseudônimo foi escolhido em homenagem a esses gatos, e a crítica da Arte-Factos também comenta essa origem afetiva do nome. Aí o título deixa de soar só poético: ele fala de uma pessoa que se nomeia, que se inventa sem romper com sua origem.

Há algo especialmente tocante quando o filme volta à infância. Não é nostalgia vazia. É um retorno a um território contraditório: a casa, a família, os gatos, a varanda, mas também o colonialismo, a segregação, a guerra próxima, o racismo.

A crítica da Arte-Factos observa que o documentário passa pela cidade da Beira, pelas memórias do autor e pelos caminhos que o levaram à literatura. A Cinemateca também lembra que Mia revisita a escola primária onde, segundo ele, não havia colegas negros — detalhe pequeno na forma, enorme no conteúdo.

O mais forte é que o filme não trata a literatura como ornamento. Para Mia Couto, escrever parece ter menos a ver com vaidade intelectual e mais com serviço. Ele se define como alguém que recebe vozes, histórias, recados.

Em uma das falas citadas pela Cinemateca, afirma: “Penso na escrita como missão (…) no escritor como transmissor de recados.” Em outra formulação, registrada pela Arte-Factos, ele diz: “Sou um transmissor de recados.

Essa ideia muda completamente o jeito de ver o documentário. Mia não está ali para explicar sua obra como quem entrega uma chave de leitura. Ele aparece como alguém atravessado por muitas falas.

Pessoas o encontram, contam casos, oferecem palavras, pedem tradução. Em certo momento citado pela crítica da Arte-Factos, surge a palavra “improvisório”: algo entre provisório e improvisado, uma palavra que não estava no dicionário, mas fazia falta. É um detalhe maravilhoso, porque mostra como a literatura de Mia Couto nasce desse atrito entre a gramática e a vida.

A direção de Solveig Nordlund aposta num ritmo mais quieto… Não há pressa para transformar tudo em tese. O filme acompanha o escritor em Portugal e, sobretudo, em Moçambique, ligando sua trajetória pessoal à história do país, à independência, à guerra civil, à busca por uma identidade literária moçambicana.

Em vez de empurrar explicações, o documentário deixa que a fala de Mia encontre seu tempo.

O resultado é uma obra simples na aparência, mas muito rica no subtexto. “Sou Autor do Meu Nome — Mia Couto” fala de um escritor, claro, mas fala também de como uma língua pode deixar de ser herança imposta e virar matéria própria.

A Cinemateca registra uma formulação poderosa sobre isso: a literatura moçambicana passa a “usar o português como língua própria, que já não é do outro”. É aí que o documentário encontra sua força emocional: Mia Couto não escreve para enfeitar o português; ele escreve para deslocá-lo, sujá-lo de chão, devolvê-lo às pessoas que o transformaram.

Assista ao documentário de graça clicando aqui.

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Gabriel Pietro

Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.

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