Por Jaqueline Ferreira

O que é que nós, profissionais psicológicos, treinados para ouvir, mas antes sentimentais e vocacionados acerca da construção daquilo chamado pensamento – instância poderosa, porém dúbia então frágil – podemos colaborar com quem não seja profissional quando este se depara na iminência de romper, por sua própria vontade, com a vida: o suicídio?

‘Você’ cisma com uma coisa, o pensamento tá lá: liderando, impondo e aí, você cede, você obedece.

‘Você’ quer fazer regime, ato contínuo o que acontece? O pensamento te diz ‘coma brigadeiro’ – você come. Você quer aprender japones, o pensamento te impõe um namoro. Você quer ler o pensamento te coloca o sono…as vezes você quer viver, e aí, se mata.

Sobre suicídio, pensamos, será que a vida daquela pessoa que tentou ou que conseguiu é ruim, a pessoa é feia, é bonita, é pobre? não, é rica! é filho único? Não, ela tem irmãos!

‘Só’ no meu círculo de amigos, já conseguiram: se jogando debaixo do metrê, enfiando a faca na perna, se atirando do sétimo andar, se jogou no mar, remédios, se enforcou.

– Porquê?

Posso escrever até amanhã os porquês, mas, para encurtar a conversa que é tensa, posso dizer que é preciso que façamos o possível e assim, fazendo o possível, resolverá?
Como profissional de saúde te digo:
– não.
E aí?

Sobre o suicídio
Só para insistir: se voce vê uma pessoa sendo excluída, o que você faz?

Se você vê alguém repetindo de ano. vê alguém engordando (na cultura gordofóbica) ;você vê alguém escrevendo que se corta ao ponto de levar 100 pontos, o que você sabe fazer efetivamente?

Pouca coisa, eu sei também poucas coisas.

E eu não vou ficar aqui te dizendo ‘não fale que o outro é gordo, é feio, é burro, pois eu sei: você sabe disso, senão, seu vizinho que faz, sabe. Mas segue fazendo e sim, na minha opinião, esta nossa cultura induz muito mais as pessoas a se matarem submilinarmente do que na Idade Média. Eu tenho uma Pesquisa nas mãos para fazer esta afirmação?

– Não tenho, digo empiricamente.

Sobre o suicídio, o fim. Sobre impulsionar a morte, dar linha ao nada, tirar o destino de muita gente pois é isso que acontece quando um se mata, morrem muitos daquele.

Sobre o suicídio, quando a pessoa não diz nada. Não dá mostras, você diz o quê, sobre a Linguagem?
E se ela ameaçar, disser algo, fizer e ‘não conseguir’ (se matar), o que você faz?

Parece que, quando uma pessoa se mata, aquela que fica se mostra insuflada, fica cheia de plural dentro dela, fica invadida pela vida que sobrou do outro…

Às vezes acho que falta nas universidades e nas praças, nas ruas, nos bares, copos cheios de Alice. Livros cheios de coelhos e gatos, folhetins sobre cartolas e rainhas, e se você perguntar:

– Quem é Alice?

Eu te respondo:

– Aquela que caiu num buraco aí se desesperou e encontrou um gato macabro e correu tropeçou encontrou uma rainha tantas experiências vividas enquanto corria, enquanto inventava, enquanto sonhava e acreditava que poderia encontrar o caminho de volta….

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