Texto trazido do site JUSCATARINA
Hoje, com saúde, eu acordei em minha cama, no meu quarto, tomei banho quente no meu banheiro, coloquei as minhas roupas e tive o meu farto café da manhã. Fui trabalhar. Ao meio dia, com meu carro e no ar condicionado fui almoçar, comi salada, arroz integral, feijão e um contra-filé grelhado ao ponto. À tarde presidi audiências e entre elas tratei de uma envolvendo um egresso do presídio em livramento condicional. Às 16h fiz intervalo para um lanche. No início da noite fui para a academia exercitar o corpo e finalmente voltei para meu apartamento, onde jantei e tomei uma taça de vinho, droga essa lícita. E voltei a dormir em minha cama. Sou juiz.
Hoje, doente, com dor de estômago e inflamação na perna esquerda, portador do HIV, ele acordou na calçada, numa via pública, tomou banho no centro de referência para população em situação de rua e não teve café da manhã. Foi pedir pelas esquinas. Ao meio dia, com os próprios pés e sob sol numa temperatura de 39 graus andou a procura de almoço, não almoçou. À tarde compareceu a uma audiência e na frente do juiz justificou o cumprimento regular do seu livramento condicional. Às 16 horas não fez intervalo, não tinha lanche. No início da noite foi para o centro da cidade exercitar a miséria e finalmente voltou para uma rua qualquer onde jantou daquilo que alguém dispensou e usou alguma droga, essa ilícita. E voltou a dormir na calçada. Ele é ex-presidiário.
A diferença entre nós: eu tive muitas oportunidades na vida, ele poucas ou nenhuma; eu tive família, educação e referências positivas, ele nunca soube o que é família, largou os estudos nos primeiros anos e suas referências nem sempre foram positivas. Sou um ser humano melhor do que ele? Não sou. A esta altura da vida tenho mais do que ele? Tenho sim. Isso é justo? Não, não é! Não nos damos conta do quanto somos responsáveis por esse estado de coisas. Está na hora de vivermos com menos julgamentos e mais alteridade.
Errata: desta vez, na realidade deste dia, às 16h o rumo da história dele mudou. Ele teve um lanche fornecido, o assistente social o atendeu e em seguida em meu nome foram acionadas as redes de atenção municipais. O ciclo se quebrou. Hoje ele não dormirá na calçada. E eu dormirei melhor.
Só por hoje.
João Marcos Buch é juiz de Direito.
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