Nem sempre é fácil se encontrar em meio à correria da vida adulta, especialmente quando tudo parece prestes a sair do controle. E é exatamente essa sensação — de caos, descoberta e amadurecimento — que pulsa em cada episódio de A Enciclopédia de Istambul, nova série turca da Netflix que está dando o que falar.
Criada por Selman Nacar, a produção aposta em uma trama delicada e provocativa, misturando drama familiar, conflitos internos e um toque de mistério para prender o espectador do começo ao fim.
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O ponto de partida é Zehra, uma jovem decidida a recomeçar os estudos de arquitetura em Istambul, depois de ter perdido o primeiro semestre da faculdade.
Animada com a possibilidade de retomar os planos, ela chega à capital turca carregando não só os livros, mas também a bagagem emocional de um passado mal resolvido — especialmente o da própria mãe.
A série constrói sua tensão a partir dessa base, dando voz a uma juventude que tenta se firmar num mundo que exige pressa, certezas e maturidade, mesmo quando tudo isso ainda está sendo aprendido.
Mas o enredo não para por aí. Nacar faz um trabalho cuidadoso ao entrelaçar as inseguranças de Zehra com o reencontro com Nesrin, uma mulher bem-sucedida, cirurgiã cardíaca, que a conhece desde a infância — e que agora, aos 43 anos, estuda francês com o desejo de deixar a Turquia e recomeçar a vida em Paris.
O reencontro entre as duas reacende feridas antigas, já que a mãe de Zehra rompeu laços com Nesrin de forma abrupta e misteriosa, e nunca mais tocou no assunto. Esse elo entre o presente e o passado dá força emocional à trama, ao mesmo tempo em que levanta perguntas sobre culpa, reconciliação e autoimagem.
Ao longo de oito episódios, a série também destaca o vínculo entre Zehra e Harun, um veterano da faculdade com quem ela cria uma conexão improvável, mas intensa. Interpretados por Helin Kandemir e Kaan Miraç Sezen, os dois personagens crescem juntos em cena, oscilando entre o desconforto das primeiras conversas e a cumplicidade construída pouco a pouco.
Os diálogos são sutilmente conduzidos e carregados de subtexto — em especial, quando os dois começam a discutir sobre o projeto inconcluso de Reşad Ekrem Koçu, que dá título à série: uma enciclopédia real sobre os edifícios de Istambul, escrita entre 1944 e 1973.
Mais do que um drama juvenil, A Enciclopédia de Istambul é um retrato sensível de diferentes fases da vida, da busca por pertencimento e da urgência de se reinventar — seja aos 20 ou aos 40 anos.
O que torna a série tão envolvente é justamente essa costura entre gerações, em que uma jovem em formação e uma mulher em crise dividem, cada uma a seu modo, a angústia de estar (ou não) no lugar certo. Um dos grandes acertos da Netflix em 2025, com nota 8/10.
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