Já não há protestos. Protestos devem seguir, conforme o que se pode deduzir das notícias correlatas em qualquer dos grandes portais de comunicação, determinadas regras e ter a mesma dinâmica de desfiles cívicos. Devem ser bem organizados, disciplinados, silenciosos e sem qualquer transgressão à ordem. O protesto, segundo as redes de televisão e os mais importantes jornais do país, não pode se servir à quebra dessa ordem. A mensagem das manifestações populares deve ser fria, passada em cartazes respeitosos e cantos entoados com harmonia e, preferencialmente, em tons baixos e sem dissonâncias.
Com base nesse manual tácito dos protestos, muitos jornalistas se põem a apontar o dedo e a bradar do alto de suas reportagens, colunas, bancadas e no horário nobre, chamando a atenção e dando destaque para os mascarados, para os coquetéis molotov, pedras e outros objetos que eles portam, no sentido de retirar qualquer legitimidade do protesto, que, nestes termos, escapa à ordem estrita que deveria obedecer. Diante das cenas de vandalismo, o protesto já não interessa mais.
Acontece que o protesto é exatamente contra essa ordem proclamada no noticiário. Caso assim não fosse jamais haveria protestos, que são naturalmente questionadores da ordem instituída; haveriam, sempre, atos de vandalismo. Se é assim, então, devem ser vistos como legítimos e necessários esses atos de vandalismo diante de propostas de austeridade que vêm, feito rolo compressor, retirar direitos da população brasileira em benefício do capital e da elite política e econômica.
Contudo, e aqui se faz importante um esclarecimento essencial, em se tratando de uma manifestação pública, a eventual conduta violenta de quem se manifesta não é algo que esteja imune ao alcance da norma. E aqui não há qualquer contradição. Quando um indivíduo se propõe a praticar danos materiais durante um protesto, ele assume as consequências derivadas do seu ato, que pode ser ilegal segundo as regras da convivência social. Não há imunidade para a prática de danos durante protestos. O que a conduta ilegal não autoriza, porém, é a reação desproporcional ou generalizada pelas forças de segurança. Em direito penal, a responsabilidade é sempre individual, mesmo que a infração seja praticada por várias pessoas. Como se percebe, é bastante tênue a linha que demarca os limites de atuação das forças de segurança, o que lhes exige, também por esse motivo, capacitação e treinamento específicos para lidar com a multidão em movimento.
Do lado das forças de segurança, a polícia militar, orientada segundo aqueles manuais tácitos que regulam os protestos, também foca seu trabalho na vigilância da disciplina da manifestação. No sentido de garantir a preservação da ordem, nega passagem de pessoas por determinados lugares, define trajetos e se apresenta, na dinâmica do ato, como o bedel da boa conduta dos manifestantes. Movimentação em lugares não permitidos, assim como palavras e cantos agressivos muitas vezes são imediatamente respondidos com spray de pimenta, empurrões e golpes de cassetete; por seu turno, uma vidraça quebrada, mesmo que seja do maior banco privado do país, é o pretexto que dispara o gatilho para as balas de borracha e as bombas de efeito moral, ou seja, a vidraça quebrada é a senha para a repressão violenta.
Se o protesto é identificado e reduzido ao ato de vandalismo, uma vez caracterizada a quebra da ordem (a vidraça quebrada), a polícia se esforça no sentido de impedir que o vandalismo prossiga. Logo, não haverá vandalismo, mas também não haverá protesto, que tende a dissipar-se após a intervenção violenta pelo aparato repressivo. O direito constitucional à liberdade de manifestação é, assim, mitigado por uma construção conceitual sórdida, patrocinada por uma mídia comprometida com interesses políticos e econômicos e que se propõe a legitimar, nas ruas, a violência na repressão policial.
Nesse cenário, cuja dinâmica é bastante previsível, temos então um teatro a céu aberto com seus atores, manifestantes e policiais que normalmente compõem as mesmas classes populares agora atingidas pelas políticas de austeridade que levaram ao protesto. O protesto, impossível de acontecer por violar a ordem que, segundo aquele manual não escrito, deveria respeitar, dá lugar ao ato de vandalismo. Manifestantes, com suas máscaras, paus e pedras, e policiais, com suas armas e bombas, pessoas feitas da mesma massa, que se batem e se matam pelas ruas.
Lá de cima, seja na bancada do jornal das oito ou nos escritórios que conduzem a política e a economia segundo os interesses de sempre, só se vê o sorriso cínico e o brado de que os atos de vandalismo mancharam os protestos e que os vândalos tiveram a pronta reação das forças de repressão e de manutenção da ordem pública. O que não se fala no novo manual do jornalismo politicamente orientado é que a manifestação, agora criminalizada, é o que foi reprimido e que não pode acontecer ou que ficou marcada pela repressão policial.
Para os atores, entre mortos e feridos no drama que quase sempre termina em tragédia, sobram a dor e a revolta.Os policiais, alguns feridos, outros também criminalizados por conta de ações que a tropa reputa corretas, convictos de que estão agindo segundo a lei, já não veem como meros vândalos ou baderneiros os manifestantes mascarados; são seus inimigos ou, mais grave ainda, são terroristas a serem combatidos.
Os manifestantes, impedidos de exercer o seu direito de protesto por conta da repressão dos policiais, já não reconhecem nestes a representação da lei, nem os veem como homens, mas como monstros fardados, sádicos e cruéis, que os reprimem, espancam e ferem. Mais até: os policiais são a representação imediata do sistema contra o qual se faz o protesto. São também os seus inimigos.
Embora vindos da mesma região periférica da cidade, manifestantes e policiais, na rua em ebulição, já não se reconhecem como iguais. Não são sequer pessoas aos olhos do outro grupo e vice-versa. Ou são monstros ou terroristas. Depois da batalha crua, real, vivenciada entre inimigos nas ruas transformadas em campo de guerra, sobra a tristeza. Vergonha talvez seja o sentimento mais verdadeiro neste momento.
Mais do que nunca “a palavra pessoa hoje não soa bem”, como no lamento da poesia de Belchior, que nos deixou há alguns dias. O desafio, hoje, talvez seja o de resgatar essa palavra nas nossas relações, seja em casa, na rede social ou na rua: ressignificar a palavra pessoa para que ela volte a soar bem. Utopia pura.
Tem série que chama atenção pelo crime, pela investigação ou pelo susto. Dilema prende por…
Nicole Kidman voltou ao suspense em uma produção que aposta em crimes violentos, segredos antigos…
A notícia de que o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu o andamento de milhares de…
Por anos, Robin Williams foi visto pelo público como um artista de energia rara, daqueles…
Tem teste visual que parece brincadeira de internet, mas prende justamente porque mexe com uma…
Medo de avião já rende tensão por conta própria. Em The Twilight Zone, esse desconforto…