Psicologia e Comportamento

Grandes mudanças estão a nos esperar, mas a gente não pode ter medo de lançar nossa rede ao mar

Texto de Fabíola Simões publicado originalmente em A Soma de Todos os Afetos

Quem dera poder prever e controlar tudo. Quem dera planejar uma semana inteira de sol na praia e chuva fininha na vidraça na noite de domingo pra segunda. Quem dera ordenar a vitória do nosso time e estabelecer a presença dos amigos quando a gente mais precisa. Quem dera controlar a nostalgia e evitar a melancolia. Quem dera decretar que fica proibida a falta de saúde de quem a gente ama. Quem dera instituir a reciprocidade e regulamentar a camaradagem.

Mas o ano, o mês, o dia seguinte, a vida… não marca hora, não cumpre metas, não obedece prazos. Vez ou outra a gente acerta, vez ou outra a gente escolhe o passo certo, vez ou outra somos surpreendidos com o jogo equilibrado. Viver é dar conta de sair da rota, da estrada, da rotina e aceitar a impermanência e a incerteza. Encarar o futuro e entender que, apesar dos planos, ele é incerto. Apesar das agendas, planners, organização e calendários, ele é desencontro. E, assim, aceitar que nem tudo obedece a lógica, mas em contrapartida há um milhão de bênçãos querendo chegar e contrabalancear a fragilidade dos dias.

Viver é querer arrematar e não ter linha suficiente. É achar que precisa de fôlego para subir uma montanha e encontrar um atalho. É esperar raios de sol entrando pela janela e descobrir que ele deu a volta na casa e está iluminando o quintal inteiro. É sair descabelado e trombar no grande amor. É carregar o guarda chuva na bolsa e ganhar carona no final do dia. É jogar os dados e ganhar na loteria.

Porém, de vez em quando acontece. De vez em quando nossas vontades coincidem com os planos de Deus e passamos naquele concurso, somos admitidos na empresa dos sonhos, fechamos aquele contrato, recebemos o telefonema esperado, fazemos aquela viagem, encontramos aquela pessoa. Vida é terra fértil pra quem não desiste de semear e adubar. Pra quem insiste em jogar os dados até acertar. Pra quem consegue suportar os silêncios e vazios sabendo que tudo se renova quando a gente se dispõe a ouvir o que o universo tem pra nos contar. E ele conta…

Tropeçamos, escolhemos errado, criamos expectativas, nos enganamos, ficamos em pedaços. Mas depois descobrimos que temos a capacidade de sermos inteiros novamente. E passamos a ressignificar as perdas e dores. E aprendemos a nos reconectar conosco mesmo, com nossa face mais autêntica, com quem queremos ser, com nossas limitações e vulnerabilidades. E começamos a driblar as imperfeições da vida e de quem convive conosco. E adquirimos a capacidade de jogar os dados e aceitar o resultado que vier, sabendo que tudo são ciclos, fases, encontros e desencontros. Após o inverno da alma, em que nos é exigido paciência e resiliência, vem a fase do encontro, em que damos a mão à existência, fazendo as pazes com nossa história. O mundo gira, gira…

Momentos bons são tecidos a todo instante, mas a gente tem que estar pronto para que eles cheguem de mansinho, embaralhando o ritmo conhecido de nossa vida e nos presenteando com folhas em branco e uma inspiração linda para escrever nossa história com coerência, otimismo e coragem. Grandes mudanças estão a nos esperar, mas a gente não pode ter medo de lançar nossa rede ao mar.

A gente não consegue prever tudo, mas a vida surpreende nos detalhes. Vai ter trevo de quatro folhas, voo sem turbulência, nota esquecida encontrada no bolso do paletó, quebra cabeças de mil peças formando o derradeiro desenho. E então, depois de um gesto gentil no trânsito ou de um elogio sincero no trabalho, talvez a gente consiga perceber que valeu a travessia e os malabarismos, valeu a espera e a insistência, valeu a coragem e a resiliência. Vida é mistério…

Revista Pazes

Uma revista a todos aqueles que acreditam que a verdadeira paz é plural. Àqueles que desejam Pazes!

Recent Posts

Bilionária misteriosa oferece US$ 80 milhões e exige algo que pode destruir um casamento na Netflix

Tem série que chama atenção pelo crime, pela investigação ou pelo susto. Dilema prende por…

12 horas ago

Nova série nº 1 do streaming com Nicole Kidman é uma aula de como fazer suspense investigativo que prende do início ao fim

Nicole Kidman voltou ao suspense em uma produção que aposta em crimes violentos, segredos antigos…

13 horas ago

Sofreu com atrasos e cancelamentos de voos? Entenda se você tem ou não direito à indenização

A notícia de que o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu o andamento de milhares de…

2 dias ago

“Muito pior que Parkinson”: Robin Williams recebeu o diagnóstico errado e só foi descoberto durante sua autópsia

Por anos, Robin Williams foi visto pelo público como um artista de energia rara, daqueles…

2 dias ago

A xícara que você acha que vai encher primeiro revela se você é narcisista

Tem teste visual que parece brincadeira de internet, mas prende justamente porque mexe com uma…

2 dias ago

Um homem embarca tranquilo… até descobrir que o avião em que está é o mesmo que um podcast diz que vai desaparecer

Medo de avião já rende tensão por conta própria. Em The Twilight Zone, esse desconforto…

6 dias ago