Indicação de Filme

Filme sul-africano que acaba de chegar no streaming é como uma terapia que aborda a condição humana e a fragilidade da vida

Tem filme que pega a gente pela mão com delicadeza. E tem filme que cutuca onde dói — e mesmo assim faz bem.

“Um Tipo de Loucura”, produção sul-africana disponível no Prime Video, vai direto nesse lugar: o de encarar o amor quando ele deixa de ser promessa bonita e vira convivência real, com medo, desgaste, humor estranho e uma sensação constante de que nada está garantido por muito tempo.

Em vez de romantizar, o longa prefere mexer com as nossas certezas: a ideia de que casamento “resolve”, de que filhos e carreira blindam alguém contra o vazio, de que o sentimento, sozinho, dá conta do recado.

Leia tambémEssa série brasileira na Netflix virou vício coletivo e está tomando o sono de quem começa a assistir

O roteiro (de Christiaan Olwagen e Wessel Pretorius) acerta ao olhar para duas pessoas que se amam e, ao mesmo tempo, se assustam com o fim — não só o da relação, mas o da vida mesmo.

Logo de cara, a história apresenta Elna (Ellie) e Daniel (Dan) de um jeito que foge do padrão.

Eles se cruzam na Baía de Walker, ainda crianças, depois de um episódio traumático no mar: Ellie quase se afoga e cresce obcecada pela sensação de “estar por um fio”, como se flertar com o limite fosse uma forma torta de se manter acordada para a existência.

Dan aparece como interrupção desse impulso — e esse encontro, esquisito e marcante, vira o ponto de partida de uma ligação que não afrouxa com o tempo.

O diretor trabalha com idas e vindas no tempo, usando flashbacks para mostrar como aquela conexão infantil se transforma em parceria adulta, com seus momentos de leveza e seus buracos.

O que começa com energia de juventude acaba esbarrando em algo bem mais pesado: Ellie vai parar em um manicômio, e o filme muda a temperatura sem pedir licença, deixando a plateia naquele estado de “ri, mas com um nó na garganta”.

A partir daí, Dan se recusa a aceitar a separação como sentença. Ele invade a instituição e tira Ellie de lá — não como gesto heroico limpo, mas como atitude desesperada de quem não sabe existir sem a outra pessoa.

Os dois caem na estrada em uma Ford Taunus amarela, e o roteiro abraça situações que alternam carinho e constrangimento, ternura e caos: numa parada rápida, Ellie some e vai parar num brechó, onde encontra um vestido de noiva usado e encara aquilo como se fosse a peça que faltava para um sonho que ela jura não ter vivido “do jeito certo”.

É nesse trecho que “Um Tipo de Loucura” mostra seu maior trunfo: entrar na mente de Ellie sem transformar a personagem em caricatura, deixando o filme flertar com um humor meio torto, quase absurdo, para falar de identidade, desejo e sobrevivência emocional.

Sandra Prinsloo dá corpo a essa mulher cheia de contradições — frágil num segundo, afiada no outro —, enquanto Ian Roberts sustenta Dan como alguém que ama com teimosia, mas também com cansaço, culpa e um tipo de devoção que pode confortar ou sufocar, dependendo da cena.

Leia tambémA série que acompanha 8 anos da vida de um casal e revela como a dependência emocional é corrosiva

Compartilhe o post com seus amigos! 😉

Gabriel Pietro

Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.

Recent Posts

Minissérie de 6 episódios é um dos suspenses mais bem construídos do momento e já foi vista por 50 milhões de pessoas

Se você anda com pouco tempo (e muita vontade de ver algo que realmente prende),…

4 minutos ago

Essa série brasileira na Netflix virou vício coletivo e está tomando o sono de quem começa a assistir

De uns dias pra cá, tem uma produção brasileira na Netflix que entrou no modo…

9 horas ago

Rotinas de maquiagem fáceis para dias de trabalho agitados

  As manhãs no escritório costumam ser agitadas. Ficamos presos entre o trajeto, reuniões e…

11 horas ago

10 filmes que terminam… e te deixam em completo silêncio

Tem final que a gente comenta na hora. E tem final que faz o oposto:…

1 dia ago

O Algoritmo no banco dos réus: proteção social ou o início da “Era do Silêncio”?

A discussão sobre a regulamentação das redes sociais e a punição de plataformas por conteúdos…

4 dias ago

Polilaminina: A molécula brasileira que desafia a paralisia e o esquecimento estatal

A ciência brasileira vive hoje, 20 de fevereiro de 2026, um misto de euforia e…

4 dias ago