Indicação de Filme

Esqueça Stranger Things: nova série do streaming atropela Eleven e Vecna sem fazer esforço

Derry sempre teve um jeito esquisito de “normalizar” o absurdo: some alguém, rola um acidente bizarro, a cidade comenta por dois dias e depois segue como se fosse parte do calendário. É nesse ponto — o hábito de fingir que nada aconteceu — que “It: Bem-vindos a Derry” finca a bandeira.

A nova série da HBO Max volta várias décadas antes dos filmes e usa o terror menos como susto de corredor e mais como lente: Derry vira um lugar onde o perigo se repete, muda de forma, e ainda assim encontra portas abertas… porque todo mundo prefere olhar para o lado.

A trama acompanha um grupo de jovens e alguns adultos que começam a ligar os pontos entre mortes, desaparecimentos e episódios de violência que parecem aleatórios só para quem não quer enxergar padrão.

Leia tambémEssa série de ficção científica da Netflix te fisga no 1º minuto e expõe um futuro assustadoramente próximo

Enquanto a molecada corre atrás de respostas, figuras de autoridade — polícia, lideranças locais, gente influente — tratam o assunto como exagero, “pânico moral” ou coincidência. O roteiro insiste nessa tecla: em Derry, o problema não é faltar sinal de alerta; é sobrar desculpa para ignorar.

O ritmo é bem calculado e, ao invés de despejar choque no primeiro capítulo, a série vai montando clima com paciência: conversa interrompida, rua vazia no momento errado, detalhe fora do lugar que ninguém comenta.

O terror nasce do acúmulo. E quando a coisa aperta, a sensação é de que a cidade inteira está colaborando — por conveniência, medo de confusão ou puro cansaço de “dar trabalho”.

O elenco jovem carrega boa parte da tensão sem precisar virar “turma de aventureiros”.

Aqui, as crianças e adolescentes são retratados como gente de verdade: erram, se isolam, guardam culpa, desconfiem até uns dos outros, e principalmente são desacreditados por quase todo mundo.

Isso dá um peso diferente às relações — menos discursinho bonitinho, mais atrito e silêncio. As atuações seguram a barra justamente por não exagerarem o medo: ele aparece como travamento, irritação, fuga, e não como gritaria constante.

No núcleo adulto, quem chama atenção é Dick Halloran, vivido por Chris Chalk. A série o apresenta como ex-militar e alguém com o “Brilho” (a habilidade psíquica já conhecida por fãs de Stephen King).

Só que, em vez de entrar como easter egg ambulante, Halloran vira peça dramática importante: ele sabe demais, entende o risco e acaba puxado por gente do governo interessada em transformar o sobrenatural em recurso — como se desse para “gerenciar” uma entidade do jeito que se gerencia uma operação.

Isso amplia o alcance da história e conecta a série a outras obras do King sem transformar tudo num jogo de referência.

Pennywise, com Bill Skarsgård, volta em modo mais contido — e isso joga a favor. A série evita transformar o palhaço em presença constante, porque entende que excesso vira costume. Quando ele aparece, vem com variações e formas diferentes, mirando medos específicos das vítimas.

O resultado é simples: você nunca tem certeza do que está olhando, e a tensão não cai na repetição. IT deixa de ser “um monstro com maquiagem” e vira um mecanismo de destruição que se adapta à pessoa e ao momento.

A mitologia vai crescendo em camadas, principalmente perto do fim, quando entram elementos ligados a ciclos temporais e a forma como a entidade se mistura a episódios históricos da cidade.

Algumas explicações tiram um pouco daquela névoa total de mistério, mas ajudam a série a manter coerência e a empurrar o conflito com regras internas claras, sem depender só do “porque sim”.

Nem tudo sai redondo. Os primeiros episódios oscilam no ritmo, e certas linhas paralelas parecem colocadas para preencher grade, não por necessidade real.

Em alguns trechos, os efeitos visuais entregam o jogo — especialmente em cenas noturnas e ambientes mais “digitais” — e isso enfraquece momentos que pediam mais impacto.

Também tem decisão de personagem que soa forçada, principalmente quando entram operações com militares e policiais: o roteiro às vezes dobra a lógica para acelerar a história, e aí aparecem erros de estratégia que deixam a sensação de “isso dava pra evitar”.

Ainda assim, o conjunto funciona porque sabe onde quer bater: o medo como comportamento coletivo, não só como criatura. Derry continua sendo o pior tipo de lugar para se viver numa história assim: aquele em que todo mundo percebe que tem algo errado, mas prefere manter a rotina intacta.

Leia tambémIlusão visual: apenas quem tem visão afiada consegue encontrar o cachorro entre os ursos polares em até 7 segundos!

Compartilhe o post com seus amigos! 😉

Gabriel Pietro

Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.

Recent Posts

Médico brasileiro ensina como identificar sinais de AVC para quem tem menos de 50 anos

Quando alguém tem menos de 50 anos, é comum o cérebro tentar “explicar” um sintoma…

25 minutos ago

Vai chover no Réveillon? Previsão indica tempestades fortes em 7 estados do país

Quem está contando com céu limpo para a virada pode ter uma surpresa: a combinação…

3 horas ago

5 filmes e séries incríveis que chegam à Netflix em janeiro

Janeiro costuma ter aquela cara de “voltei pra rotina”, mas a Netflix parece gostar de…

5 dias ago

Essa série de ficção científica da Netflix te fisga no 1º minuto e expõe um futuro assustadoramente próximo

Tem série que começa com “missão espacial” e você já pensa em tecnologia, exploração e…

5 dias ago

O filme mais impactante de Morgan Freeman está na Netflix – e ele mesmo afirma que é sua melhor atuação!

Tem filme que começa “do jeitinho de sempre” e, quando você vê, já virou outra…

5 dias ago

Vendas no Natal: Como ficaram as lojas da Havaianas após tentativa de boicote?

Se boicote “pega” de verdade, o Natal costuma entregar rápido: o caixa sente, a vitrine…

7 dias ago