(Abaixo, temos uma reflexão de José Ricardo de Oliveira sobre a anunciada compra, pelo governo do Estado de Goiás, de “caixotes de concreto” para aprisionar pessoas.)

O texto “Encaixotando gente” suscita em mim várias vertentes de raciocínio e vários caminhos para análise. Não quero adentrar por análises acadêmicas, prefiro fazer uma análise mais solta e pessoal.

Preciso primeiramente dizer que não sou Psicanalista. Embora tenha estudado a teoria de Freud no início da minha carreira, logo percebi que não me adequava a ela e segui por outros caminhos que me levaram a uma visão existencial/humanista, que resultou em um interesse pela Gestalt Terapia do discípulo dissidente de Freud, Fritz Perls, que mais tarde foi trocada pela visão de outro dissidente – C. G. Jung e que veio desaguar na minha última e mais recente formação, há 9 anos, a Psicologia Transpessoal. Digo isso para que você não tome minhas considerações como as de um psicanalista, que na verdade não sou.

Preciso começar invocando um grande psicólogo, outro ex- psicanalista que aplicou os princípios da psicologia da Gestalt no desenvolvimento da “pesquisa-ação”, tentando com ela dar conta de dois problemas levantados pela sociedade em sua época: os problemas sociais e a necessidade de pesquisa. Considerado o pai da Psicologia Social, sua teoria vai nos interessar por tratar das questões relativas ao “Campo Psicológico” e o “Espaço Vital”.

Segundo Lewin, condutas são o resultado da interação entre as pessoas e o ambiente.
Criador da “Teoria de Campo”, dentre outras, colocou a atenção nas interações dos grupos com o ambiente.

Ele determinou duas condições básicas para sua teoria de campo:
A primeira, determina que o comportamento é deduzido de uma totalidade de fatos coexistentes.

A segunda é que estes fatos coexistentes têm o caráter de um “campo dinâmico”, e que holisticamente o estado de cada uma das partes do campo, depende de todas as outras.

Um campo, na física, é uma zona do espaço onde existem propriedades representadas por magnitudes físicas (temperaturas, forças, etc). Ele utilizou o conceito físico de “campo de forças” (Lewin, 1988) em sua teoria de campo para explicar os fatores ambientais que influenciam o comportamento humano.

O espaço vital ou Campo Psicológico de Forças vem a ser o ambiente que engloba a pessoa e sua percepção da realidade próxima. Resulta disto que o espaço é subjetivo, próprio, que guarda a forma como o mundo é olhado, incluindo as nossas aspirações, possibilidades, medos, experiências e expectativas. Ressalte-se que este “campo” é limitado especialmente pelas características físicas e sociais do ambiente.

Primeiros caixotes destinados a pessoas que chegaram ao Paraná.

O foco da teoria de campo de Kurt Lewin permite o estudo de nosso comportamento em uma perspectiva de totalidade, sem a limitação de uma análise das partes separadas.

A influência do campo psicológico sobre o comportamento é tal que Lewin chega a determinar: as mudanças no campo, determinarão mudanças no comportamento.

Para ele, a psicologia não deve focar o estudo da pessoa e do ambiente como peças a serem analisadas de forma separada, e sim ver o modo como elas interagem e se afetam entre si, em tempo real. Lewin afirma que a teoria do campo determina quais são os comportamentos possíveis e quais os impossíveis de cada sujeito. Para ele o conhecimento do espaço vital nos permite predizer razoavelmente o que a pessoa fará.

Expus tudo isso para que se possa entender que manter pessoas “encaixotadas” afetará de forma drástica seu espaço vital. Especialmente nos moldes do pretendido pelo projeto de construção de caixas de concreto com 14.5 metros quadrados para ser habitada por 12 pessoas, o que resultará em um espaço de pouco mais de 1 metro quadrado para cada pessoa.

Esta será uma condição em que os espaços vitais ficarão como que emaranhados e isso acabara por determinar sérios transtornos psicológicos.

Presos em condições desumanas e degradantes.

Recordo aqui também um experimento muito conhecido nos estudos de psicologia experimental e Etologia, feito com ratos em uma gaiola. Sabidamente ratos têm uma alta taxa de reprodução e quando a população aumenta e o espaço físico começa a ser diminuído para cada habitante da gaiola, inicia-se um conflito e uma verdadeira guerra entre os habitantes da gaiola, que certamente levara a óbito uma boa quantidade de habitantes.

Tudo isso nos leva a questionar quais os motivos pelos quais pretende-se encarcerar pessoas. Qual a intenção? Queremos reabilitar ou punir?

O que se observa hoje no Brasil é que certamente não há nenhuma intenção de reabilitar os detentos para que estes retornem ao convívio na sociedade sem que voltem a cometer delitos.

Se assim não fosse não estaríamos proporcionando condições tão inumanas de encarceramento e proporcionando na verdade uma possibilidade de aperfeiçoamento das técnicas de delito com os outros companheiros de prisão.

Esta proposta de módulos/caixotes vem, na minha maneira de ver piorar ainda mais as condições dos presos. Alguém submetido a estas condições de “encaixotamento” não terá nenhuma motivação que não seja sair dali e se vingar da sociedade que o trata desta forma.

Temos aí então um conjunto de forças que se retro alimentam: o ódio da sociedade em punir o infrator que alimenta o ódio do infrator pela sociedade que o coloca naquelas condições e vice-versa.

O Brasil vive hoje uma crise de valores sem precedente, onde o ódio parece dominar o comportamento de boa parte da população. Os valores estão muito abalados e confusos.

Temos pessoas que incensam práticas de tortura e de exceção. Uma verdadeira guerra entre opostos, seja entre torcedores de times rivais ou admiradores de partidos políticos antagônicos. Vivemos em uma sociedade dividida, que tal qual adolescente não se conforma com derrotas, distorce argumentos, burla leis e só vê o erro no outro. Não há, na maioria das vezes, autocrítica. O que é percebido no outro como erro é, em si próprio, visto como esperteza natural.

A recente onda de escândalos ligados à corrupção leva a uma situação em que o conjunto da sociedade, tenha perdido a confiança nas leis e busquem muitas vezes, o caminho da delinquência, achando que conseguirão escapar com algum jeitinho tipicamente brasileiro, da punição.

Um sistema que não investe em educação, não dá oportunidade de ascensão social e mantém as camadas mais humildes em uma situação de vulnerabilidade econômica acaba por incentivar a criminalidade. Os crimes geram revolta dos que sofreram na pele os delitos, fato que vai gerar um clima de ódio e mais desejo de vingança. Temos então aí o caldo de cultura para a violência estamos assistindo cotidianamente nos noticiários.

Lamentavelmente estamos reféns desta situação, o desemprego em níveis alarmantes, a educação sucateada, o ódio crescendo, a criminalidade se expandido, as prisões superlotadas, e os governos tentando apagar o fogo com querosene. Qualquer solução para esta situação só será possível a médio/longo prazo se houver investimentos em educação e geração de empregos. Do contrário, não haverá caixotes suficientes para encarcerar os delinquidos por este sistema perverso que temos hoje.

José Ricardo de Oliveira é psicólogo

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