Algumas fotografias registram muito mais do que aquilo que aparece no enquadramento. Para Amanda Scarpinati, duas imagens em preto e branco guardadas desde a infância funcionavam como prova de que, em um dos momentos mais dolorosos de sua vida, alguém a tratou com cuidado e carinho. O problema é que ela não sabia o nome daquela pessoa.
As fotos haviam sido tiradas em 1977, no Albany Medical Center, no estado de Nova York, nos Estados Unidos. Amanda tinha somente 3 meses quando sofreu um grave acidente doméstico: ela caiu do sofá sobre um aparelho que liberava vapor quente e teve queimaduras de terceiro grau.
Nas imagens, a cabeça da bebê aparece coberta por gaze. Uma jovem enfermeira a segura cuidadosamente nos braços, tentando acalmá-la durante a recuperação. Uma das fotografias chegou a ser publicada na capa do relatório anual do hospital naquele mesmo ano.
Amanda sobreviveu ao acidente, mas as consequências continuaram presentes por muito tempo. Ela passou por diversos procedimentos cirúrgicos e cresceu convivendo com as cicatrizes deixadas pelas queimaduras.
Durante a infância, também enfrentou provocações de colegas por causa de sua aparência. Em entrevista à Associated Press, Amanda contou que era insultada, perseguida e atormentada. Nos dias mais difíceis, recorria às fotografias da enfermeira que a havia acolhido no hospital.
Mesmo sem conhecer aquela mulher, Amanda conversava com a imagem e encontrava certo alívio ao observar a maneira como era segurada. A expressão da profissional transmitia uma atenção que continuou significativa décadas depois.
A identidade da enfermeira, porém, permanecia desconhecida.
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Já adulta, Amanda decidiu procurar a profissional para agradecer pelo cuidado recebido. A busca se estendeu por aproximadamente duas décadas, mas as tentativas convencionais não produziram respostas.
Ela tinha as fotografias, o nome do hospital e o ano em que havia sido atendida. Ainda assim, localizar uma enfermeira que trabalhara no local no fim dos anos 1970 estava longe de ser uma tarefa simples. Registros antigos, mudanças de sobrenome e transferências profissionais transformavam a procura em um quebra-cabeça pouco amigável, como costumam ser quase todos os processos burocráticos inventados pela humanidade.
Em setembro de 2015, Amanda resolveu publicar as fotos no Facebook. Na mensagem, explicou que gostaria de descobrir o nome da enfermeira, conversar com ela e, se possível, encontrá-la pessoalmente.
Também pediu que as pessoas compartilhassem a publicação, apostando que a imagem poderia chegar a alguém ligado ao Albany Medical Center.
A estratégia funcionou com uma rapidez inesperada.
Pouco depois da publicação, Angela Leary, que também havia trabalhado como enfermeira no hospital em 1977, reconheceu a mulher das fotografias.
Seu nome era Susan Berger.
Susan tinha 21 anos quando cuidou de Amanda e havia acabado de concluir a faculdade. Décadas depois, continuava atuando na área da saúde e morava no estado de Nova York. Segundo relatos da época, Amanda recebeu a resposta que procurava em menos de um dia.
A surpresa não ficou restrita a Amanda. Susan também havia guardado as fotografias e ainda se lembrava da bebê que segurara nos braços.
Ao falar sobre aquele atendimento, a enfermeira recordou que Amanda permanecia bastante calma. Segundo Susan, bebês normalmente acordavam da cirurgia chorando ou ainda sob efeito da anestesia, enquanto Amanda parecia tranquila e confiante em seus braços.
Em 29 de setembro de 2015, Amanda e Susan se encontraram no Albany Medical Center, 38 anos depois da fotografia que havia unido suas histórias.
Durante o reencontro, Amanda abraçou a enfermeira e finalmente pôde agradecer pelo gesto que carregara na memória durante toda a vida. As duas também posaram com uma ampliação do antigo relatório do hospital, cuja capa mostrava Susan segurando a bebê enfaixada.
Amanda declarou que nunca acreditou que aquele dia realmente chegaria. Para ela, encontrar Susan significava colocar um nome e uma voz na pessoa que representou segurança em uma fase da qual não tinha lembranças conscientes, mas cujas consequências acompanharam sua infância.
Susan, por sua vez, afirmou sentir-se privilegiada por representar todas as enfermeiras que participaram do tratamento de Amanda ao longo dos anos.
Ela também destacou como era raro um profissional de saúde descobrir, décadas depois, que um momento aparentemente breve de cuidado havia permanecido tão vivo na memória de uma paciente.
A fotografia encontrada no Facebook não revelou um segredo escondido na imagem. Ela revelou quem era a mulher que Amanda procurava havia 20 anos e permitiu que um gesto ocorrido em um quarto de hospital, em 1977, finalmente recebesse um agradecimento pessoal.
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