Desde pequena, tive paixão por borboletas. Acho lindo como voam, sobem, descem, sobem de novo, e borboleteiam mundo afora, de flor em flor, de canto em en-canto.

Me pergunto por qual razão Deus criou uma criatura que nasce de um jeito, transforma-se e depois re-nasce num dos seres mais belos e frágeis existentes nesse planeta. Tão bela e tão frágil! E também tão alegre! Quem consegue não sorrir ao olhar para uma borboleta?
Será que o tanto que nos encantamos com a graça de uma borboleta não tem a ver com o fato de sermos uma analogia perfeita ao seu ciclo?

Observe: nascemos e crescemos… Das dores da vida, metamorfoseamo-nos e renascemos transformados, com mais beleza nos olhos e vontade de viver. Não é assim que amadurecemos? Quando crianças e jovens devoramos tudo que há pela frente: comida, informações, diversão.

Terminada a juventude, com a experiência de sentir que os anos passados nunca mais serão, metamorfoseamo-nos. Calamo-nos. Absorvemos a vida sem devorá-la, mas sentindo-a. Amadurecemos dentro desse silêncio, até que um dia não cabemos mais em nós e alçamos voo. Belos e simples como uma borboleta, amando mais e nos sensibilizando mais.

As dores da vida nos transformam. Há vários tipos de dor que tem o poder de nos transformar… Da dor de um parto, renasce a mulher e nasce a mãe; das decepções e mágoas, nasce um coração mais forte, belo e sábio. Quem se permite enfrentar a dor da transformação ganha asas e se liberta. Porém quem se recusa a entrar no silêncio do casulo continua eterna lagarta devoradora. Infelizmente é preciso reconhecer: nem toda lagarta se transforma. Nem todo mundo se transforma. Muita gente continua sendo sempre lagarta, eterna devoradora sem muito a oferecer.

Acontece que, mesmo nas analogias, o mundo tem um equilíbrio sábio. Uma vez comidas as folhas, não há mais como alimentar a fome das lagartas. E, nesse caso, as pessoas- lagartas tornam-se eternas famintas insaciáveis e infelizes, enquanto as demais borboleteiam mundo afora.

Quando nos transformamos, o olhar da gente muda. E a fome também. Queremos apreciar e degustar outras coisas e outros prazeres da vida. Imagina que tristeza passar a vida inteira gostando só de um tipo de comida? Ou olhando para a vida só com o olhar de quem se arrasta como as lagartas? Quem se arrasta cai menos, isso é certo. Mas vê menos. Pensa menos. Vive na segurança do tédio de quem come o mesmo prato de comida todos os dias com medo de provar algo diferente. Muitas pessoas poderiam já ser velhas e sábias borboletas, mas insistem que o mundo das lagartas é melhor…

Que possamos despertar a borboleta aprisionada dentro das lagartas que nos cercam.

E que o mundo fique pleno e repleto das mais belas asas coloridas!

Foto: Elisangela Verano

Raquel Alves

Arquiteta por formação, hoje dedica-se integralmente a presidir o Instituto Rubem Alves, criado para manter vivo o pensamento de seu pai, difundir a sua obra e capacitar novos mestres.

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