Por Haroldo Caetano
Quando o que menos importa é o respeito à vítima e à vida, sobram razões para justificar o assassinato. Como temos 60.000 homicídios a cada ano e não dá para investigar a carnificina, é bem mais confortável negar a dignidade de quem morre.

“O crime está relacionado com o tráfico” ou “com a guerra entre facções” ou “é resultado do acerto de contas entre ladrões”, dizem, dando por encerrada boa parte dos casos. Já quando é a polícia que mata em confronto, a morte chega a ser comemorada e dispensa investigação. Afinal, se a polícia matou é porque quem morreu era bandido mesmo. Para se ter uma ideia, com uma média de quatro por dia, foram 125 mortos pela polícia do Rio de Janeiro apenas no último mês de novembro (http://bit.ly/2IwF4ML).

O problema se complica, todavia, se há indícios de que essa mesma polícia pratica uma execução sumária, situação em que já não basta repetir o discurso legitimador de sempre; logo, é preciso primeiro transformar a vítima em bandido.

No caso da combativa e corajosa vereadora Marielle Franco, que não media palavras para denunciar a violência policial e que acabou morta em um atentado covarde, isso vem sendo feito com o apoio de muita gente, inclusive uma desembargadora(!) do TJRJ (http://bit.ly/2G3lSaT), cuja versão que busca incriminar Marielle por sua própria morte é compartilhada a esmo via redes sociais.

É preciso justificar o assassinato a qualquer custo. É que, como não investigamos os homicídios, construímos a ideia que a cada dia ganha mais força, a de que quase só bandidos são vítimas de homicídios. Incriminamos a vítima. Então, aqui vai um conselho, especialmente para você que eventualmente defende direitos humanos no Brasil: evite morrer assassinado. A culpa será sua.

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Haroldo Caetano
Haroldo Caetano da Silva é promotor de justiça, mestre em Direito e doutorando em Psicologia Social.


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