Uma publicação compartilhada por Samuel L. Jackson durante a Copa do Mundo de 2026 tirou a discussão sobre a Argentina das arquibancadas e a levou para um terreno bem mais delicado. Em poucas horas, provocações futebolísticas, episódios de discriminação, diferenças culturais e questões históricas passaram a ser tratadas como partes de um mesmo problema — algo que muitos argentinos consideraram uma generalização injusta.
O ator norte-americano compartilhou em seus stories uma postagem que pedia às pessoas negras que não torcessem pela seleção argentina. O conteúdo afirmava que a Argentina seria “historicamente um dos países mais racistas do mundo” e utilizava uma imagem do personagem Stephen, interpretado por Jackson no filme Django Livre, vestindo a camisa da equipe sul-americana.
Embora o texto original não tenha sido escrito pelo ator, o compartilhamento foi entendido como um endosso da mensagem e ganhou grande repercussão nas redes sociais e na imprensa internacional.
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As reações vieram de argentinos de diferentes origens, incluindo integrantes da comunidade negra, ativistas antirracistas e estrangeiros que vivem no país há anos.
O comediante e influenciador angolano Ari Balanga, morador da Argentina há cerca de uma década, questionou a declaração de Jackson e afirmou que o ator não deveria definir toda uma população sem conhecer pessoalmente o país. Ele também o convidou a visitar a Argentina e conversar com seus habitantes antes de formular uma avaliação tão abrangente.
A organização antirracista Identidad Marrón adotou uma posição mais equilibrada. O grupo reconheceu a presença de práticas racistas na sociedade argentina, mas rejeitou a ideia de que o país seja excepcionalmente mais racista do que outras nações latino-americanas.
Para a organização, parte da análise estrangeira costuma se concentrar na pequena presença de pessoas negras com características fenotípicas mais evidentes na seleção. Essa leitura, segundo os ativistas, deixa de considerar a população de origem indígena, mestiça e afrodescendente que compõe o país e também sofre diferentes formas de discriminação.
A crítica de Samuel L. Jackson não surgiu sem um episódio concreto por trás. Em 3 de julho, durante a partida entre Argentina e Cabo Verde, em Miami, o streamer norte-americano IShowSpeed relatou ter sido alvo de uma ofensa racista nas arquibancadas.
Speed, cujo nome verdadeiro é Darren Watkins Jr., transmitia o jogo ao vivo e usava uma camisa da seleção de Cabo Verde quando uma torcedora argentina teria mandado que ele fosse “chorar no zoológico”.
A FIFA informou que tomou conhecimento do caso e iniciou imediatamente uma investigação. A entidade também condenou manifestações de racismo, ódio e discriminação, afirmando que comportamentos desse tipo não são compatíveis com os valores promovidos pela competição.
O episódio deu força às críticas dirigidas aos torcedores argentinos, principalmente porque o futebol do país já havia sido associado a gestos racistas, imitações de macacos e cânticos ofensivos contra jogadores negros ou de outras nacionalidades.
Ainda assim, argentinos ouvidos após a declaração de Jackson afirmaram que o comportamento de uma torcedora não oferece base suficiente para classificar milhões de pessoas da mesma maneira.
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Parte dos entrevistados reconheceu que a cultura futebolística argentina pode soar agressiva para quem a observa de fora. A provocação constante, a exaltação do orgulho nacional e o hábito de transformar partidas em disputas pessoais são elementos bastante presentes no futebol local.
O advogado argentino Leo Simone admitiu que os argentinos frequentemente são vistos como arrogantes e que essa percepção ajuda a explicar a rejeição internacional. Sua esposa, porém, avaliou que muitas pessoas confundem arrogância com orgulho.
Já o jornalista esportivo Ezequiel Fernández Moores afirmou que os códigos locais de deboche, provocação e ostentação das vitórias nem sempre funcionam diante de um público internacional. Segundo ele, a Argentina não pode esperar que o restante do mundo compreenda automaticamente sua forma de se expressar no futebol.
O sociólogo Iván Schuliaquer, da Universidade Nacional de San Martín, defendeu que o racismo existente no ambiente futebolístico deve ser reconhecido e combatido, mas não transferido automaticamente para toda a história e toda a sociedade argentina.
A reação ao ator chamou atenção porque parte das críticas veio de pessoas negras que nasceram ou vivem na Argentina.
A argentina Zoé Gerbaudo, natural da província de Córdoba e atualmente moradora de Nova York, afirmou que existe uma campanha de hostilidade contra seu país. Ela também contestou versões frequentes nas redes sociais de que a Argentina teria eliminado deliberadamente sua população negra.
Outros ativistas lembraram que o racismo argentino assume características próprias. Termos como negro, indio, cabecita negra e villero já foram usados de maneira pejorativa contra pessoas pobres, indígenas, mestiças ou moradoras de regiões periféricas.
Por isso, parte do movimento antirracista local considera inadequado analisar a sociedade argentina exclusivamente pelos critérios raciais aplicados nos Estados Unidos. A avaliação é que a discriminação existe, mas envolve também classe social, origem regional, aparência e ascendência indígena.
A discussão ganhou ainda mais repercussão após a derrota argentina para a Espanha na final da Copa do Mundo, realizada em 19 de julho.
A Espanha venceu por 1 a 0 na prorrogação, com gol de Ferran Torres, e conquistou seu segundo título mundial. A Argentina terminou a partida com dez jogadores após a expulsão de Enzo Fernández, que recebeu o segundo cartão amarelo aos 93 minutos.
Depois do apito final, Leandro Paredes se envolveu em confrontos com jogadores espanhóis, incluindo Eric García e Gavi. O incidente provocou uma confusão maior entre atletas e integrantes das duas delegações, enquanto o técnico Lionel Scaloni tentava separar os envolvidos.
A FIFA nomeou um responsável das áreas disciplinar e ética para investigar a briga, mas ainda não estabeleceu prazo para divulgar possíveis punições.
Também houve críticas ao momento em que integrantes da seleção argentina viraram as costas durante a entrega do troféu aos espanhóis. Para Fernández Moores, mesmo considerando os costumes provocativos do futebol argentino, a atitude foi inadequada.
Com isso, fatos distintos acabaram reunidos em uma mesma narrativa: a ofensa contra IShowSpeed, o histórico de cânticos discriminatórios, o comportamento agressivo na final e a postagem compartilhada por Samuel L. Jackson.
A resposta argentina sustenta que esses acontecimentos merecem investigação e autocrítica, mas não autorizam transformar práticas de indivíduos ou grupos de torcedores em uma definição definitiva de todo o país.
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