Literatura

Amores sem dimensão

Enquanto o dia esquentava eu brinquei de observar o beija flor parado no ar. Parado? Não, ele não estava parado.

Suas asas batiam e todo seu corpinho se ajeitava para que ele pairasse no mesmo lugar.

Muitas vezes na vida parecemos o beija flor: pensamos que estamos parados, mas na verdade o sistema que nos mantém vivos está a milhão por hora. São ilusões idi-óticas.. Basta um mínimo de atenção para percebermos que nunca estamos totalmente parados. O que usamos para avaliar nossas vidas é que pode ser uma boa ou má referência, afinal somos construídos pelas referências que nos cercam. E quanto mais conseguirmos carregar uma visão sistêmica sobre o que nos cerca, mais dinâmica será a nossa consciência sobre nós.

Não queremos apenas viver por viver. Isso é o que os animais fazem: eles vivem e são plenos dentro da vida que lhes cabe. Nós temos sede de melhorar o mundo e com isso pessoas no mundo todo se dividem nas mais diferentes tarefas. Uns distribuem comidas e cobertores para moradores de rua, médicos voluntários atendem em países miseráveis onde crianças e adultos são devorados pela fome e por doenças, outros servem a sua espiritualidade como forma de conforto e ajuda para aqueles que buscam, alguns se tornam artistas, músicos, poetas… São as mais variadas formas humanas de melhorar o mundo.

Nosso senso de dinamismo não se mede em quantos movimentos usamos para viver, mas pela nossa capacidade de melhorar o mundo.

Acredito que isso aconteça porque somos invadidos pelo amor. Não me refiro ao amor direto. Explico: se tenho animais de estimação, família e amigos por exemplo, eu os amo. Esses amores são lineares, diretos e tem nomes: Frida, Lili, João, Jorge, Gregório, Totó… Me refiro ao amor que não é linear, não tem nome e não sabemos de onde vem. É um amor plural: amor pela vida, amor pela natureza, amor pela humanidade, amor pela arte… Esses amores sem dimensão e sem fonte específica, são a força que nos move para melhorar o mundo, pois são eles que alimentam nossos desejos. E eis aqui um detalhe muito importante: pessoas que tem desejos e sonhos são infinitamente mais dinâmicas que aquelas que não tem. Afinal, nossos sonhos e desejos são a força motriz que nos impulsiona e o amor é o combustível que os alimenta.

De onde vem esse amor? Não importa. Cada um, com a sua forma de ver o mundo, entende a origem desse amor de uma maneira diferente. O que todos sabem de forma comum é que o amor existe, e isso basta. Se fecharmos os olhos e pensarmos em algo ou alguém que amamos de verdade, podemos sentir o amor. Ele é presença física e está em você, em mim e nos homens que zelam pela bondade. Além disso, nada mais importa! E quem ama pode melhorar o mundo. Cada um do seu jeito… O meu, eu acho que é escrevendo pois através das minhas palavras procuro despertar nos leitores pensamentos adormecidos. Qual é o seu?

Raquel Alves

Arquiteta por formação, hoje dedica-se integralmente a presidir o Instituto Rubem Alves, criado para manter vivo o pensamento de seu pai, difundir a sua obra e capacitar novos mestres.

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