Literatura

A magia do baobá na obra de Saint Exupéry e Mia Couto

 

O baobá, também chamado de embondeiro, ou imbondeiro, talvez seja a árvore em torno da qual mais existam lendas, em todo o mundo. Árvore de idade incerta, posto que a sua madeira não possui anéis de crescimento, sua imponência, sua força, a fantastia que a envolve desafiam a imaginação humana. Cada um vê nessa árvore um diferente mistério. Uma magia peculiar.

Com espécies nativas da África, de Madagascar e do Senegal, foi um baobá nascido em solo brasileiro (Natal, Rio Grande do Norte) que inspirou Saint Exupéry ao escrever “O pequeno príncipe” e no desenho das aquarelas. Neste livro, o baobá é visto como um iminente perigo ao minúsculo asteroide do protagonista, e razão pela qual ele necessita, urgentemente, de um carneiro que possa comer os baobás assim que brotarem do chão.

Baobá que inspirou Saint Exupéry- Natal, Rio Grande do Norte

Há uma outra história de que gosto muito, narrada por Mia Couto no livro “Cada homem é uma raça”. Concebida pelo escritor à sombra de embondeiro, ou, quem sabe, apenas à sombra de sua lembrança, trata-se do conto “O embondeiro que sonhava pássaros”.

É a história de um passarinheiro negro que morava num embondeiro e que visitava, com recorrência, um bairro de brancos, despertando o encantamento das crianças e a desconfiança dos adultos.

“O homem puxava de uma muska (Muska – nome que, em chissena, se dá à gaita-de-beiços.) e harmonicava sonâmbulas melodias. O mundo inteiro se fabulava. Por trás das cortinas, os colonos reprovavam aqueles abusos. Ensinavam suspeitas aos seus pequenos filhos – aquele preto quem era? Alguém conhecia recomendações dele? Quem autorizara aqueles pés descalços a sujarem o bairro? Não, não e não. O negro que voltasse ao seu devido lugar.”

E assim o passarinheiro ganhou fama e passou a ser objeto de comentários de todo o bairro, despertando diferentes reações em cada um.

Um preto ganhar fama não era algo aceitável, posto que nem mesmo a convivência era ali tolerada. Assim, os moradores do bairro trataram de denegrir a sua imagem. De desumanizá-lo, de sorte a poderem melhor discriminá-lo. Quiçá prendê-lo. Ou matá-lo.

“Mas logo se aprontavam a diminuir-lhe os méritos: o tipo dormia nas árvores, em plena passarada. Eles se igualam aos bichos silvestres, concluíam.”13295_gg

Diante do encantamento das crianças, especialmente de um menino chamado Tiago, o passarinheiro lhes transmitia lendas acerca da grande árvore:

“(…) aquela era uma árvore muito sagrada, Deus a plantara de cabeça para baixo.“

“Aquela árvore é capaz de grandes tristezas. Os mais velhos dizem que o embondeiro, em desespero, se suicida por via das chamas. Sem ninguém pôr fogo.”

Mia Couto se vale, no conto, de sua poesia ímpar e das crenças africanas acerca do embondeiro. Ele discorre sobre a alma preconceituosa e medrosa dos homens, sobre a fantasia das crianças, e ainda sobre as desigualdades de um mundo em que a cor de um homem pode servir de fulcro para a sua condenação cabal.

Assim, o embondeiro é, tanto no conto quanto na vida, uma fonte de magia a cada um que de perto observar a sua imagem, trazendo-a ao coração. Ele nos mostra a grandeza da Natureza que nos cerca e do quanto a nossa mente ainda necessita expandir para bem compreende-la e integrar-se a ela.

E, talvez, nas palavras de Mia Couto, quem sabe em breve tempo a humanidade já consiga assimilar o que, do embondeiro, o menino Tiago viu em sonho:

“Dentro, o menino desatara um sonho: seus cabelos se figuravam pequenitas folhas, pernas e braços se madeiravam. Os dedos, lenhosos, minhocavam a terra. O menino transitava de reino: arvorejado, em estado de consentida impossibilidade. E do sonâmbulo embondeiro subiam as mãos do passarinheiro. Tocavam as flores, as corolas se envolucravam: nasciam espantosos pássaros e soltavam-se, petalados, sobre a crista das chamas.”

Talvez ainda possamos enxergar os sonhos do embondeiro. Afinal, afirma Mia, que o embondeiro sonha pássaros. Sonhemos também!

Crédito da capa Chris Renshaw/ via Shutterstock

Nara Rúbia Ribeiro

Nara Rúbia Ribeiro - advogada especialista em Regularização de Imóveis, pós-graduanda e Direito Imobiliário. Atua em Goiânia - Goiás. É também editora-chefe da Revista Pazes.

Recent Posts

Ela cresceu como uma mórmon e sofria nas mãos da família. Hoje, há quem diga que esta estrela é a mulher mais bonita do planeta

A imagem pública de Julianne Hough costuma estar associada à dança, aos grandes programas de…

20 horas ago

O filho de Mel Gibson, Milo, cresceu e, aos 35 anos, está a cara do pai; veja fotos

Mel Gibson construiu uma carreira marcada por personagens que atravessaram gerações, de Mad Max a…

20 horas ago

Aos 58 anos, a atriz Gillian Anderson, de Sex Education, anunciou que é “pansexual”

Gillian Anderson passou boa parte da carreira interpretando personagens que ajudaram a ampliar sua imagem…

21 horas ago

Conhecido por O Incrível Hulk, ele continuou trabalhando mesmo com a saúde cada vez mais frágil

Para milhões de espectadores, Bill Bixby ficou associado ao cientista David Banner, o homem que…

1 dia ago

Você vê menos de 7 círculos ou mais de 10? A interpretação desse teste muda bastante

Uma imagem formada por círculos aparentemente simples voltou a circular na internet acompanhada de uma…

1 dia ago

Bolsa, joias e relógios chamam atenção, mas a resposta do teste está em outro detalhe

Relógios caros, joias, bolsa de grife e até um carro de luxo aparecem na imagem.…

1 dia ago