Sobre os vazios que nos habitam

Os animais selvagens costumam andar em bandos. Fico pensando se eles encontram plenitude na vida e nas companhias que tem. Será que viver em coletivo para eles torna a vida deles mais agravável, ou será que isso é apenas um mecanismo de defesa? Não consegui achar resposta convincente. Porém é certo que nós humanos vivemos buscando nossas “tribos”. Seja na família, na aula de dança, nas escolas, nos bares…

Hegemonia é uma palavra criada a partir do pressuposto de igualdade: hegemonia de um povo, hegemonia de uma cidade, hegemonia dentro dos grupos, hegemonia na família, hegemonia entre os amigos… É uma utopia que reflete nossos desejos mais íntimos, da busca do nosso ser e do nosso estar dentro de um conjunto. Porém, não passa de uma utopia. Em escalas maiores temos vários exemplos que demonstram a inexistência da hegemonia: classes sociais, culturas e pensamentos diversos. Em escalas menores isso também acontece. Assistimos com freqüência famílias e amigos pensando diferente e tendo culturas e crenças diferentes. Isso é muito comum.

Vejo o pensamento como uma força individual: cada um tem o seu. E isso por si só já faz o próprio ato de pensar ser a ferramenta mais forte para quebrar a hegemonia. Não se cria uma malha uniforme onde todos pensam diferente. A teia de fios não se costura. Afinal quem pensa diferente, sonha diferente e sente diferente. Até podemos nos encontrar dentro de pequenos grupos, mas somos sempre um universo único em si dentro do sistema que nos cerca. E sistema algum será outro universo igual ao nosso. Somos sempre únicos. Essa regra se aplica desde as gigantescas constelações de estrelas até nós.

Quando a forma de viver e agir de um grupo nos preenche um lado, logo percebemos que nossos “outros lados” não foram preenchidos. Seremos sempre únicos e portanto solitários. Nunca haverá hegemonia que tampe nossos buracos internos. Eles sempre farão parte de nós. Compete a nós mesmos fazermos amizade com eles. A única hegemonia real que podemos atingir é a interna: de nós para nós mesmos. Nietzsche sabia bem disso e dizia odiar quem lhe roubava a solidão sem verdadeiramente lhe oferecer companhia.

Somos todos como satélites. Alguns, belos como a lua. Outros estranhos como os projetados pela NASA. Estamos sempre girando, uns em torno de outros: nossa família, amigos, cidades, são satélites que giram em torno de nós, compondo a nossa vida. Os belos como a lua são aqueles que amamos e que fazem nossa vida mais prazerosa. Amamos olhar para eles pois são belos e nos iluminam. Já os demais são apenas aparelhos que nos acrescentam, sem amor e nem beleza. E assim também somos para os outros: ora luas, ora satélites – máquinas, sempre circulando em volta daqueles que nos cercam, porém sem jamais conseguir entrar dentro dos vazios que os habitam.
Somos preenchidos e compreendidos integralmente apenas através dos nossos próprios olhos.

Por isso é comum a sensação dolorosa de “vazio”. É porque esperamos que algum satélite possa ocupar um lugar que só nós podemos ocupar. Por mais que a lua tente casar com a terra, elas nunca se fundirão. A beleza se encontra justamente nessa dança de vai e vem, de esconde e brilha que fazem, como eternas namoradas.

Acredite: seu corpo nunca esta vazio. Tampouco seu coração. Você é um sistema completo em si mesmo onde nada falta. Dicotômico isso: sentir falta daquilo que não nos falta pois não nos pertence. A falta que sentimos é uma dor real. Porém o que achamos que é um buraco vazio, nunca o será, e vivemos na ilusão de desejar que outros joguem o jogo da vida com as nossas peças. Compartilhamos o tabuleiro, mas jamais poderemos compartilhar as peças… Ora somos lua, ora somos terra e vivemos sempre um a contornar o outro, mas jamais poderemos nos tornar um só – nem em corpo, nem em pensamento.

Quando aceitamos que somos nosso próprio universo, reconhecemos o mundo imenso que nos habita. Esse reconhecimento nos torna fortes para iluminar aqueles que estão ao nosso redor, tal qual o sol que ilumina todos os planetas que giram em torno dele. E quem ilumina os outros, não deve se preocupar com “buraco” algum, pois se torna um ser pleno de luz.

Quanto às nossas dores podemos acalentá-las brincando tal qual a Lua e a Terra com aqueles que amamos. Mas o mundo interior apenas a nós pertence. E é dentro dele que devemos guardar nossos maiores tesouros… Afinal é do interior da terra que germinam as flores e a vida…

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Raquel Alves
Arquiteta por formação, hoje dedica-se integralmente a presidir o Instituto Rubem Alves, criado para manter vivo o pensamento de seu pai, difundir a sua obra e capacitar novos mestres.



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