Um rio que clama por sua vida

Huallaga é um rio peruano com 1.138 quilómetros de extensão. Desagua no Rio Marañon que, por sua vez, no decorrer de sua extensão, se transforma no nosso Rio Amazonas. Tingo Maria é uma das sete cidades que compõe a Província de Leoncio Prado. Conta atualmente com 60 mil habitantes e é banhada pelo Rio Huallaga.

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Caminhão do distrito de Castillo Grande despejando o lixo no Rio Huallaga

Esta é mais um manancial de águas que o homem está destruindo pouco a pouco. Por incrível que possa parecer, alguns munícipios dessa província recolhem os seus lixos e, simplesmente, jogam tudo dentro ou nas margens deste rio. Por dia, são seis a oito caminhões repletos de todas as espécies de detritos, cerca de 50 toneladas de resíduos sólidos. Já foram encontrados até partes de corpos, pois até mesmo o lixo hospitalar é aí despejado.

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Trabalhadores buscando materiais recicláveis em meio a todo tipo de detrito despejados pelos caminhões.

José Valdivia, engenheiro zootecnista e Maritza Bautista, educadora, são dois moradores de Tingo Maria. José, quando criança, banhava e brincava nas limpas águas deste rio. Vendo a situação em que o mesmo se encontra atualmente, resolveram trabalhar para salvá-lo. Faz 10 anos que decidiram agir e lutar para acabar, ou pelo menos minimizar, este gravíssimo problema. A primeira ação foi uma conscientização dos moradores com relação à situação. Valdivia é um especial

Em 2010, graças a uma palestra do professor Rolf Pushman da Universidade de Viçosa, Minas Gerais, realizada na Universidade Nacional Agrária da Selva, em Tingo Maria, começou a tomar corpo uma organização mais efetiva. Foi criada a Comissão de Gestão de Resíduos Sólidos da Universidade, da qual Maritza foi escolhida como presidente. Esta comissão passou a fazer palestras nas escolas da cidade, para crianças, jovens e professores, mostrando a importância de se cuidar do meio ambiente, com o objetivo de sensibilizar, conscientizar e partir para mudanças de atitudes.

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Todo o serviço é feito sem as mínimas condições, sem equipamentos de segurança, sem nenhuma máquina. Tudo na base da força e exposição total a contaminação e acidentes.

O próximo passo seria buscar o apoio da autoridade constituída da municipalidade. Porém nada conseguiram. Foram sempre ignorados por diferentes prefeitos e demais autoridades, que faziam e ainda fazem de conta que o problema não existe.

Em 2012 criaram a Associação 3R de Tingo Maria – Reduzir, Reciclar, Reutilizar – da qual Maritza Bautista é, atualmente, a presidente. É formada por profissionais do meio ambiente, como agrônomos e engenheiros em recursos naturais, e trabalhadores que vivem da reciclagem.

Todos os dias estes trabalhadores estão no meio destas 50 toneladas de lixo para separar plásticos, ferros, vidros, papéis, cartões, metais, etc. Os materiais recicláveis que conseguem recolher são vendidos para intermediários que, depois, levam tudo para revender em Lima, a capital peruana. Estes intermediários compram por preços baixos para, posteriormente, poder ganhar na revenda. O ideal seria fazer a venda direta, sem passar pelos intermediários. Para isso teriam que ter seus próprios caminhões para o transporte. Porém, essa aquisição ainda não é possível porque precisam ter recursos financeiros e uma autorização fornecida pela prefeitura de Tingo Maria, que não reconhece a Associação de Recicladores.

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Maritza Bautista (ao centro) junto com alguns dos trabalhadores de reciclagem.

Uma outra entidade que atua na região é a Frente Cívico para o Desenvolvimento Integral da Província de Leôncio Prado, da qual José Valdívia é o presidente. Esta entidade busca atender a outros aspectos da vida da população, como a parte agrícola, ambiental, melhorar a educação com intercâmbios culturais e científicos e a luta contra a corrupção. Esta associação apoia os trabalhadores de reciclagem procurando fornecer a eles melhores condições de trabalho, capacitação e orientação de como manusear os resíduos sólidos.

José e Martitza tem visitado o Brasil uma vez por ano em busca de mais informações e conhecimentos para o trabalho que realizam, como também para conseguir apoio institucional. Acabaram de obter um sinal positivo para firmar um convênio de cooperação cultural e científico com a Universidade Federal de Viçosa.

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Componentes da Frente Cívico Leoncio Prado. Ao centro, na mesa, José Valdivia.

O trabalho é duríssimo e desanimador frente ao total descaso das autoridades políticas locais e também da falta de consciência da própria população que parece ver o rio exatamente como um local natural de depósito de lixo. Porém, José e Maritza não desanimam. Seguem com muita esperança nesta luta pela vida do Rio Huallaga e de seu ecossistema. São voluntários que trabalham sem receber salários. O que os move é o sonho pela preservação do meio ambiente e o desenvolvimento social sustentável, sem a destruição dos recursos que a natureza nos dá. Esperam o apoio de entidades nacionais e internacionais e de pessoas que se sintam sensibilizadas com o problema. Se você é uma delas, ajude a divulgar esta causa.
Por Geraldo de Oliveira


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