Nova Teoria do Medalhão – por Leandro Karnal

Em tempos antigos, com alfabetização reduzida, existia uma pequena elite intelectualizada e uma imensa massa excluída da cultura formal. O mundo contemporâneo foi trazendo uma difusão maior do conhecimento.

A internet potencializou o processo. Surgiu uma expressiva categoria intermediária entre os dois polos citados no começo. São as pessoas alfabetizadas e com alguma leitura, sem grande densidade, mas com informações. Você pode identificá-los de forma fácil: são os reis do slogan. “A religião é o ópio do povo”, falam com energia, ainda que seu conhecimento de Marx tenha esta frase como horizonte. “O homem é o lobo do homem”, afirmam com verniz hobbesiano. Assumiram os conselhos do pai no conto machadiano: Teoria do Medalhão. Deploram a ignorância do povo brasileiro, mas estão apenas alguns centímetros à frente da média.

Traço distintivo: são ressentidos. Funcionam como um emergente social: tratam com raiva a pobreza porque dela vieram e sentem esta proximidade como um incômodo. Sabem algumas regras gramaticais. Gritam quando ouvem para “mim fazer”. Porém, da sua sua semi-educada boca saem pérolas como “eu namoro com fulana” ou eu sou “melhor preparado do que…”.

Não dizem “menas” , mas ignoram regência. Não estou indicando que a gramática normativa seja um distintivo social, mas destaco a contradição das pessoas que tripudiam sobre a plebe ignara a partir das 4 ou 5 coisas que conseguiram captar. Querem um exemplo recente? Recebi , há alguns anos, umas 20 mensagens ironizando pesadamente a palavra presidenta, como se fosse fruto de um estupidez exemplar.

Bem, a palavra existe e é correta. Deveriam ouvir o pai da Teoria do Medalhão: “Tu, meu filho, se me não engano, pareces dotado da perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste nobre ofício. Não me refiro tanto à fidelidade com que repetes numa sala as opiniões ouvidas numa esquina, e vice-versa, porque esse fato, posto indique certa carência de ideias, ainda assim pode não passar de uma traição da memória…”

PS: quer saber se vc é ressentido? Basta perguntar: achou que este texto era sobre vc e ficou ofendido? resposta dada.

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