Sobre homens e sabiás

O canto do sabiá. Quase um cântico sagrado. Penetra na alma, serpenteia beleza através dela, depois bate asas e parte.

Muitos que se emocionam com o canto dos sabiás os prendem em gaiolas para garantir que fiquem por perto, cantando sempre. O que não sabem, é que a maior parte da beleza do canto do sabiá é justamente o fato de nunca sabermos quando vem, se vem ou de onde vem. Pássaros livres nos presenteiam com a surpresa da honra de sua presença! Quem é livre vai para onde quer. Escolhe onde ir e onde ficar. E tê-los por perto é um presente que alegra a alma.
Muitas pessoas são assim, como os que engaiolam os sabiás.

Ama (ou pensam que amam) tanto que encarceram o companheiro por perto para não correr risco de ele ir cantar em outra árvore. Depois de um tempo o sabiá não canta mais tão bonito. Canta triste, preso… E a alegria do reencontro depois de um tempinho de saudades não existe mais. O mais incrível é que não percebem o que fazem e culpam o pássaro por falta de inspiração para cantar!

Prender pássaros em gaiolas é o mesmo que depena-los vivos: um massacre à sua beleza natural.

As pessoas por não compreenderem o mundo que os cerca, temem-no. Engaiolam-se. Tanto a si quanto aos que amam. Pois uma pessoa livre jamais irá encarcerar a alma de alguém, ela quer companhia para voar junto! Já as pessoas que se engaiolam, para ter os outros por perto, engaiola-os também. Para querer engaiolar a essência e a vida de alguém, é preciso que já se esteja aprisionado dentro da sua gaiola, vivendo de poleiro em poleiro ou se rastejando no chão.

Aos poucos, essas pessoas perdem a força das asas e a coragem da alma. E nem sabem mais que podem voar.

A essência humana pulsa em gaiolas abertas. Coragem, liberdade, alma, beleza. Essas são coisas pelas quais valem a pena a vida.

Quem põe a coragem, a alma e a beleza em primeiro plano está tocando os conceitos mais profundos que existem num ser humano. E com eles vivos, pulsando, é impossível que não exista o amor e a bondade…

Uma sociedade saudável precisa começar pelo indivíduo. Não se constrói uma comunidade forte com pessoas engaioladas. Pois quem vive em gaiola não vê o coletivo e muito menos vê a vida através de outros ângulos.

Já os homens livres, capazes de voar com outros, ver o mundo acima de poleiro, podem construir sociedades saudáveis.

As matas, fruto supremo da sabedoria Divina, muito nos ensina. Somos nós que insistimos em não ver as coisas por outro ângulo.

Enquanto isso, os homens se destroem. E os sabiás voam, de árvore em árvore cantando a beleza da vida…

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Raquel Alves
Arquiteta por formação, hoje dedica-se integralmente a presidir o Instituto Rubem Alves, criado para manter vivo o pensamento de seu pai, difundir a sua obra e capacitar novos mestres.



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