XXI
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma coisa para trincar
Seria mais feliz um momento…

Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural…
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva…


O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica…
Assim é e assim seja…

Alberto Caeiro (Heterônimo de Fernando Pessoa)

No livro “O Guardador de Rebanhos”
Abaixo, a declamação do poema pelo ator Pedro Lamares:

Se Eu Pudesse Trincar a Terra TodaSe eu pudesse trincar a terra toda E sentir-lhe um paladar, Seria mais feliz um momento … Mas eu nem sempre quero ser feliz. É preciso ser de vez em quando infeliz Para se poder ser natural… Nem tudo é dias de sol, E a chuva, quando falta muito, pede-se. Por isso tomo a infelicidade com a felicidade Naturalmente, como quem não estranha Que haja montanhas e planícies E que haja rochedos e erva … O que é preciso é ser-se natural e calmo Na felicidade ou na infelicidade, Sentir como quem olha, Pensar como quem anda, E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre, E que o poente é belo e é bela a noite que fica… Assim é e assim seja … Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos – Poema XXI" Heterónimo de Fernando Pessoa

Posted by Fernando Pessoa e seus heterônimos on Thursday, July 14, 2016

Crédito da foto de capa : Aaron Burden
@aaronburden/https://unsplash.com

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