Por Octavio Caruso

Eu tenho uma teoria que pode parecer pessimista, mas considero válida. O cinema estava caminhando para seu fim na década de cinquenta, acabaria se tornando uma opção irrelevante de entretenimento. Os grandes estúdios dominavam a indústria, os diretores eram peões suportáveis na equação, caso o produtor considerasse necessário, o comando do filme trocaria de mãos da noite para o dia, o nome que assinava não importava.

Na era de ouro, sem competição alguma, as salas escuras eram o ponto de encontro da alta sociedade, famílias vestiam seus melhores trajes e planejavam com antecedência a grande noite. Os cinejornais, transmitidos antes das sessões, agregavam dinamismo e emoção audiovisual às notícias. Nem mesmo a guerra e a crise financeira conseguiam abalar esta arte, porque nos momentos mais difíceis, quando o indivíduo se vê sem perspectiva de vida, ele busca inspiração na fantasia, ele esquece dos problemas naquele par de horas recostado na poltrona.

O cinema se torna eficiente ferramenta de propaganda contra Hitler, exaltando o patriotismo, a linguagem já havia evoluído com o aperfeiçoamento do som e estava abrindo novas possibilidades com as cores. Aqueles artistas que não souberam se adaptar ficaram pelo caminho, muitos afirmavam que o som havia sido o ponto final naquela história. O que eles diriam da televisão?

Agora as famílias podiam desfrutar de todo tipo de entretenimento no sofá de suas casas, o aparelho revolucionou o conceito de diversão. O forte dos produtores de cinema não era a criatividade, eles estavam acostumados a pagar profissionais para pensar e executar as ideias. Artifícios foram criados na tentativa de atrair público, como o 3D, prometendo incrível imersão, ou o Smell-O-Vision, que fazia o espectador sentir os aromas de elementos selecionados na tela grande, mas nada disso alterava a qualidade do material exibido.
As bilheterias sofreram um profundo golpe quando a televisão passou a oferecer aventuras no Velho Oeste, comédias e romances adocicados, gêneros populares. Os produtores então deram sinal verde para tramas nos únicos gêneros que ainda não tinham encontrado espaço na tela pequena, o terror e o sci-fi. Neste período, grandes astros respeitados viveram bruxas, adoradores do demônio, vampiros, babás malévolas, toda sorte de personagens sombrios.

Foi também a época dos suntuosos épicos bíblicos, pensados para o gigantesco CinemaScope, tecnologia de filmagem e projeção criada em 1953, como oposição imbatível para a televisão. Só que o desgaste do tema nos anos seguintes, aliado à pouca qualidade na maioria dos roteiros, culminou no fracasso retumbante de “Cleópatra” em 1963, que quase levou a FOX à falência. Se continuasse neste rumo, o fim seria questão de tempo.

Quem salvou o cinema? Os jovens críticos europeus da “Cahiers du Cinéma”. Nos textos deles, o diretor tinha papel de destaque, até mesmo nas produções menos pretensiosas. Ele era o autor da obra. Hitchcock, aos olhos de François Truffaut, era um mestre. O cineasta inglês só foi respeitado mundialmente após este aval. Chabrol, Godard, Rivette, Rohmer, entre outros, rapazes apaixonados que não se satisfazendo com a teoria, encontraram na prática suas identidades artísticas.

A valorização do diretor como autor foi o estopim para movimentos cinematograficamente libertários no mundo todo, os grandes magnatas dos estúdios foram substituídos por jovens ousados, como Martin Scorsese, Steven Spielberg, Francis Ford Coppola, George Lucas, Arthur Penn, Robert Altman, William Friedkin, Monte Hellman, John Cassavetes, Samuel Fuller, Brian de Palma, entre tantos outros, representantes da chamada “Nova Hollywood”. O que me conduz para os dias de hoje. Creio que vivemos mais um momento de crise criativa.
Os adultos estão abandonando o cinema, já que grande parte dos roteiros são pensados para satisfazer o imediatismo adolescente. O artifício do 3D, que veio ganhando espaço nos últimos anos, quase sempre subutilizado, já não empolga, além de encarecer o ingresso. Os épicos bíblicos de hoje, as adaptações de quadrinhos, já começam a mostrar sinais de desgaste. A “novidade” agora é fazer versões em preto e branco de lançamentos ainda frescos. A coragem, em estilo e substância, parece estar nas mãos dos roteiristas de séries televisivas.

Quem vai salvar o cinema desta vez?

Créditos foto de capa  Fer Gregory

 

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Octavio Caruso
Escritor, crítico de cinema, ator, roteirista e cineasta, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema).


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