Pega leve, eu só queria te conhecer

Aí vocês se esbarram na balada. No Tinder. Ou num ônibus que faz a linha Rio- Mogi das Cruzes. O que vocês foram fazer lá não interessa. O fato é que vida os colocou de alguma forma juntos um do outro. E num esbarrão vocês acabaram de se conhecer. Quer dizer, se conhecer não é bem a palavra. Vocês trocaram uns beijos, uns amassos bem calientes; talvez tenham até transado. Ou não. Ou de repente ficaram só naquele papo sobre literatura-viagens- série preferida. Tem gosto pra tudo.

E cada um sente tesão do jeito que bem entender. Aí a conversa flui, o beijo encaixa, uma pele desliza na outra e o sexo funciona que é uma maravilha! Vocês gozam de um jeito, como não gozavam a sabe-se lá quanto tempo. E tudo acontece com tanto humor, com tanto calor, e até com uma certa dose de ternura; sensações que num primeiro encontro é raro de acontecer. Aí vocês trocam telefone, e disparam quase uníssonos: a gente vai se falando, gostei de você.

Aí seu inferno começa. Não dá nem meia hora, ele ou ela, começa a te ligar. Você não atende. E do outro lado da linha, o fulano ou a fulana entende que isso é a senha pra entupir de mensagens seu celular. É um tal de “Já tô com saudade, ainda tô com seu cheirinho em mim, me liga quando der, hoje a noite eu tô livre, a gente podia comer uma pizza, tomar um chope, ir ao cinema sei lá, tá tudo bem por aí? Aconteceu alguma coisa? Eu posso saber onde o senhor está? Falei algo errado? Não tô te entendendo? Custava responder depois de visualizar?”

Aí você, não por sacanagem, mas naturalmente um pouco assustado, quer dizer bastante assustado, quase entrando em pânico, e sem saber o que falar, continua inerte depois de visualizar as trocentas mensagens que ele ou ela seguiu obsessivamente te enviando, pelo resto da semana.

Sim. O Fulano ou a fulana, com tendências à psicopatia crônica quase congestionou seu whats app com tanta carinha, florzinha, coraçãozinho, sinceridade, romantismo precipitado e intensidade deixando bem claro o quanto estava apaixonado (a) por você.

Aí, você que não é de bancar o escroto e nem de julgar coração dos outros, até compreende que tempo em qualquer relação é relativo. Tem gente que fica junto por um ano, ou se brincar por uma vida toda, sem necessariamente ter se apaixonado, tem gente que se apaixona num bloco de carnaval e o resultado é marcha nupcial, chuva de arroz, e bem casados. Mas até nesses casos de imediatismo, de urgência desmedida, houve recíproca em fazer a coisa acelerar. Ainda que atípico, foi natural, sem ninguém se assustar.

Aí, o beijo que tinha encaixado que era uma beleza, o sexo que tinha colocado no chinelo qualquer vulcão em erupção, ou simplesmente o papo que tinha sido mais gostoso que torta de chocolate ou mousse de limão, vai pro ralo.

Aquele doido varrido ou aquela doída, te encheu tanto a paciência e te assustou de um jeito que não foi a primeira impressão que ficou; pelo contrário: dessa você nem se lembra mais.

O que ficou gravado na sua cabeça foi o comportamento desequilibrado desse fulano(a) carente e certamente mal amado(a) que meteu os pés pelas mãos, pôs os carros na frente dos bois, e feito um trator, atropelou qualquer possibilidade de reencontro, ao ser tão precipitadamente disponível, inflamável feito um combustível e de um modo incompreensível passar do ponto.

Aí, como o mundo é pequeno, você descobre que ela ou ele, mora no mesmo bairro que você, que guardou a lembrança mais infame desse tsunami que antes de começar por medidas de sua própria segurança, teve que chegar ao fim. E para evitar maiores represálias (vai saber, é cada louco hoje em dia) da forma mais covarde: você começa trocando de rua, e termina trocando o número do seu celular na TIM.

Mas antes da atendente mudar o número, você cria coragem e depois de milhares de mensagens que ficaram sem resposta, decide escrever:

Pega leve com a sua próxima vítima, um primeiro encontro é pouco tempo, pra você praticamente obrigá-la a continuar a fim de você.
Pega leve, eu só queria te conhecer.”

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Herton Gustavo
Herton Gustavo é publicitário, poeta, dramaturgo, roteirista, ator e magro nas horas vagas. Acredita no amor, e no poder das dietas japonesas. É solteiro, desde 1986. Tem no currículo dez textos teatrais inéditos. E onze pés na bunda. Na internet alimenta as Fanpage H.G do Rivotril e Herton Gustavo Ao Quadrado. Mas está sempre com fome.



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