Para que o Amor?

Impossível borboleta que voa com uma só.

Avião de asa quebrada cai, não adianta ter a outra intacta e perfeita com a turbina funcionando. Para andar, precisamos de duas pernas. Na gangorra, duas pontas.

Na vida, muitas coisas são assim. Um sobe para que o outro desça, um empurra para que o outro ganhe impulso, um cala para o outro falar. Somos feitos para viver em pares. Há sempre um complemento de forças que fortalece ambos os lados. Pelo menos, era para ser assim…

Hoje em dia a natureza nos mostra que há mais gente no mundo do que ele dá conta. Gente que nasce abandonada pelos pais que não querem carregar o preço de uma noite de sexo inconsequente. Outros crescem supervalorizados, sem referencias de limites. Outros são ensinados a vencer custe o que custar. Essas pessoas não se relacionam para somar forças pois pensam que “vencem” e vivem por conta própria. Nunca na história da humanidade houve um período tão desastroso em relação aos relacionamentos. Estão se construindo casamentos de duas borboletas de uma asa só… Impossível voar gostoso e alto assim! E o culpado é sempre o outro que não consegue voar direito…

A sociedade se esqueceu do sentimento de coletivo dando lugar ao desenvolvimento integral individualizado.

Compreende-se. As pessoas estão preferindo ficar solteiras diante de tantos cenários conjugais desastrosos. E assim ensina-se e aprende-se a se desenvolver e sentir amor e plenitude por conta própria. E tampa-se o sol com a peneira. Salvo raros casos de gente que se casa com a solteirice por escolha, os demais aprendem a ser felizes por conta própria para fugir da ansiedade de encontrar a outra ponta da sua gangorra.

Evoluem, descobrem-se, tornam-se amigas profundas de suas almas. Mas a falta do outro sempre está por lá, pairando feito urubu no céu – longínquo e silencioso, que fica rodeando o que quer.

Creio que o desejo de se relacionar de forma construtiva vem junto com a pessoa. Como se fizesse parte do DNA. Mas assistindo tantos relacionamentos doentes que existem, optam por viver sozinhas mesmo que haja um urubu negro a espreita. Isso é mais um tipo de abrigo. A humanidade desde os seus primórdios refugiou-se em abrigos: cavernas, casas… E agora abriga-se dentro de si.

Sempre se fala para olharmos o outro lado da moeda. Como se tudo na vida tivesse dois lados só. As questões da vida tem tantas faces para serem olhadas! Não sei quantas são, mas sei que são várias – muito mais que apenas dois lados. Entre o branco e o preto há milhões de tons de cinza. Hoje em dia decisões são tomadas cada vez mais analisando os tons de cinza. Era para ser mais eficaz. E é! Mas por mais que a pessoa construa perfeitamente suas argumentações racionais, ela não consegue espantar seu urubu.

Urubus vivem de carniça. E pela própria analogia, só o amor bem vivido e sentido tem poder de não deixar apodrecer. Sem a carniça, ao invés de urubus, planam sobre nossas cabeças águias, cheias de coragem para construir seus ninhos cada vez mais altos.

A paz do voo do urubu e da águia é a mesma. Planam e contemplam a beleza do mundo de forma mansa. Mas um se alimenta de carniça. O outro se alimenta de coragem. O homem não sabe do que é capaz de construir quando se enche de coragem. Mais uma vez, o amor é a grande engrenagem que impulsiona o mundo.

Não sejam borboletas de uma asa só…

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Raquel Alves
Arquiteta por formação, hoje dedica-se integralmente a presidir o Instituto Rubem Alves, criado para manter vivo o pensamento de seu pai, difundir a sua obra e capacitar novos mestres.



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