O vendedor ambulante tem nome, é Luiz Carlos Ruas. Antes de mais nada é preciso dizer o seu nome. Os noticiários tem se limitado a mencioná-lo como “o ambulante assassinado na estação do metrô”, como se o seu trabalho não o dignasse a ter o nome pronunciado em escala nacional. Essa é uma das várias maneiras encontradas pelos grandes veículos de comunicação, deseducadores do povo que são, de atrelar implicitamente o valor de cada um de nós à nossa posição social, de negar nossa humanidade com base no nosso poder aquisitivo. Luiz era humano.

Nada se sabe ainda sobre sua vida pregressa. Antecedentes criminais provavelmente não tinha, já teriam nos informado se os tivesse. Pouco se sabe também sobre os criminosos que o espancaram.Tudo o que sabemos até agora são as causas da sua morte, que foram duas: Luiz Carlos, em primeiro lugar, morreu por não ser indiferente ao ódio e à violência de dois homens homofóbicos. Morreu por não ter se calado. Em segundo lugar, morreu por ter sido o único a não se calar, o único naquela silenciosa  estação de metrô a não permanecer indiferente diante de uma injustiça. Sua cabeça foi pisoteada repetidas vezes diante de vários indivíduos que ou assistiram a cena imóveis, ou continuaram andando como se não tivessem visto nada.

O ódio e a indiferença sempre foram bons aliados. A indiferença é uma espécie de adubo, matéria morta da qual o ódio se nutre e sem a qual não germina. É que o indiferente, no fundo, carrega a ilusão de que se preserva ao se omitir. O indiferente é o bom empregado, cidadão de bem, trabalhador resiliente que aguenta quieto os enxovalhos do patrão para se poupar da dor de ser demitido. Tolera as injustiças que sofre, porque não haveria de tolerar as que os outros sofrem? A história, entretanto, está abarrotada de exemplos assombrosos do que acontece a uma nação, inclusive aos indiferentes que nela (sobre)vivem, quando discursos de ódio ecoam sem encontrar qualquer resistência, quando ecoam sem que se possa ouvir voz dissonante.

Luiz foi uma voz dissonante, uma voz brutalmente silenciada por uma força muito maior que aquela que colocaram nos chutes que acertaram o seu rosto. Esperamos que os homens que o espancaram sejam presos, claro, mas qualquer sensação de segurança proporcionada por uma punição exemplar aos criminosos seria ilusória. O ódio está aí, no ar, não há quem não sinta seu odor e mais cedo ou mais tarde ele voltará a encontrar alguém que o encarne. O país está em crise, o desemprego e a fome tem aumentado, o povo espera por respostas efetivas e, geralmente, discursos fortes como os de ódio passam a sensação de “efetividade”. Pelo andar da carruagem, a não ser que tenhamos a coragem de nos tornarmos todos Luiz Carlos Ruas, estamos condenados a padecer nas mãos dos seus assassinos, os dois velhos cúmplices, num futuro próximo.

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André Luiz Ribeiro
Um goiano amante da Filosofia que cultiva com afinco a arte da dúvida. Milita a favor de causas humanitárias e é Editor da Revista Pazes.

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