O que lembrar do Holocausto?

Dia 27 de janeiro foi o dia da recordação do holocausto na Alemanha nazista. Além das condolências e da lembrança indignada do genocídio principalmente de judeus, mas também de ciganos, homossexuais, comunistas e opositores do regime, precisamos refletir sobre as condições que permitiram a ascensão do partido nazista e de Hitler ao poder, pois eles foram eleitos democraticamente.

Uma das lembranças importantes é que o discurso de Hitler era fortemente moralista e anticorrupção. Sua crítica a todos os políticos era marcante e sua plataforma incluía “limpar” a política pela força de uma liderança única. Em um dos trechos do Mein Kampf (“Minha Luta”), Hitler escreve:

“Não é, pois, de estranhar que o nosso povo não seja o que deveria, o que poderia ser e que os outros povos o vejam como o cão que lambe as mãos que acabaram de castigá-lo. A nossa atual incapacidade para alianças resulta da situação do povo e, mais ainda, da orientação dos nossos governos. São estes, com a sua corrupção, os responsáveis por tudo. Por isso é que, depois de oito anos de desmedida opressão, existe tão pouco desejo de liberdade.”

“Uma metade de nossos políticos é constituída de elementos essencialmente ladinos, sem caráter e inimigos de nosso povo, enquanto a outra metade é constituída de homens fracos, boa gente, inocente e cheia de complacência.”
Sobre os comunistas e marxistas, comenta ele, na mesma obra:

“Em um tempo em que os melhores elementos da nação morriam no front, os que ficaram em casa, entregues aos seus trabalhos, deviam ter livrado a nação dessa piolharia comunista. Ao invés disso, sua Majestade o Kaiser estendia a mão a esses conhecidos criminosos, dando, assim, oportunidade a esses pérfidos assassinos da nação de voltarem a si e de recuperarem o tempo perdido.”

“Para tornar a nova causa e seus líderes conhecidos é necessário não somente destruir a crença na invencibilidade do marxismo como demonstrar a possibilidade, a viabilidade de um movimento que lhe seja contrário.”

“O marxismo procura calculadamente entregar o mundo às mãos dos judeus.”

“O marxismo aparece como a tentativa dos judeus para enfraquecer, em todas as manifestações da vida humana, o princípio da personalidade e substituí-lo pelo prestígio das massas. (…) No que diz respeito à economia, o efeito disso é o estabelecimento de uma organização que, na realidade, não serve aos interesses do proletariado mas aos propósitos destruidores do judaísmo internacional.”

O povo alemão humilhado depois da 1ª Guerra Mundial, com inflação alta, governo fraco e Estado corrompido, foi facilmente seduzido pelos discursos de liderança forte, moralismo e culpabilização de judeus e comunistas pela falência moral e cultural da nação. A intolerância fazia parte do comportamento de boa parte da população alemã.
Com base nesse discurso, em 1932, o partido nazista conquistou 33% das cadeiras do parlamento e construiu uma aliança com partidos conservadores para eleger Adolf Hitler como chanceler.

A implantação do regime nazista não foi fruto de invasão, golpe ou da psicopatia de uma ou outra liderança, mas de um contexto construído gradativamente, com a participação direta do povo, que permitiu que o terror se instalasse como forma de afastar o fantasma do comunismo, eliminar as raças inferiores e os comportamentos desviantes com base na violência contínua casada com a fixação de uma “nova doutrina”nas mentes da população (com ajuda dos meios de comunicação) e edificar um Estado “purificado”, guiado por um único pensamento.

O resto da história é conhecido.

Pelas semelhanças com certos discursos no Brasil atual, estimulados pelos meios de comunicação de massa, o risco da repetição da história não foi afastado.

COMPARTILHAR
Maurício Abdalla
Licenciado em Filosofia, doutor em educação e professor do Departamento de Filosofia da UFES.



COMENTÁRIOS