O holocausto brasileiro: genocídio de 60 mil

Como num ritual, uma das “pacientes” pega de suas próprias fezes e passa sobre sua barriga. O objetivo? Proteger-se do tratamento que lhe era dedicado: choques e estupro, a dura realidade do “Colônia”, o maior hospício do Brasil, fundado em 12 de outubro de 1903.

A história do local que matou mais de sessenta mil pessoas, mesmo com a obra primorosa de Daniela Arbex, publicada pela Editora Geração, permanece desconhecida no país. Mostra razões claras para o ativismo em Direitos Humanos, para a eliminação do tratamento manicomial.

Barbacena, em Minas Gerais, entre os anos de 1969 e 1980, recebeu meninas grávidas violentadas por patrões, esposas confinadas para que seus esposos pudessem morar com amantes, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento, homens e mulheres queperderam os seus documentos… Alguns eram apenas tímidos, outros eram parte das minorias indesejáveis, os negros, prostitutas, homossexuais e os alcoólatras.

Em 1961, a instituição tinha 5.000 “pacientes”; a capacidade inicial era de 200 leitos. Nesse período, o de maior lotação, 16 pessoas morriam por dia, vítimas do frio, inanição e eletrochoques. O livro informa que 70% dos internados não tinham diagnóstico de doença mental.

Dos 60 mil mortos no interior da Colônia, 1.853 tiveram seus restos mortais vendidos sem autorização para universidades brasileiras, quando o mercado ficou sobrecarregado de tantos corpos, começaram a ser decompostos em ácido no pátio do hospital, na frente dos “pacientes”, e então as ossadas eram comercializadas.

O trabalho de Daniela Arbex foi de devolver identidade aqueles que foram trancafiados e tiveram as suas cabeças raspadas. A nudez exposta, viram-se obrigados a urinar e defecar em público, desesperar-se com a fome, a descaracterização da personalidade e da dignidade, a sanidade desconstituída pouco a pouco, por meio de seções intermináveis de eletrochoques, que culminavam em morte. Revela, sem sensacionalismo, com carinho e sensibilidade, memórias tristes, mas que merecem ser reavivadas para que nunca mais aconteçam.

As memórias de quem se alimentava de ratos, bebia água de esgoto ou urina, daqueles tantos pacientes que dormiam sobre capim e se amontoavam uns sobre os outros para se afugentar do frio, que matou outros tantos nas noites geladas da Serra da Mantiqueira. Que aprenderam a cuidar uns dos outros, a proteger-se do frio, e que puderam recomeçar o seu caminho após anos de sofrimento. São também as memórias daquelas mães que viram seus filhos roubados após o parto desumanizado da Colônia.

Desde a publicação de Daniela, a luta pela reforma manicomial já alcançou avanços, mas ainda há muito por fazer. A principal delas é a Lei Antimanicomial, 10.216/2001, que representa uma tentativa válida de reconhecer dignidade e atenuar as limitações sociais e econômicas das pessoas que sofrem com transtornos mentais.

Sobre o ocorrido no “Colônia”, a história lhe deu o nome que merece ter. Em 1979, o psiquiatra italiano Franco Basaglia, um dos primeiros a lutar pelo fim dos manicômios, após visita a Colônia, declarou: “Estive hoje num campo de concentração nazista. Em lugar nenhum do mundo presenciei uma tragédia como essa”.

Por Alexandre Ferreira


 

Fonte indicada: Direitos Humanos, Desconstrução e Poder Judiciário site a que recomendamos. Curta a página no Facebook.

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