Viver é navegar em alto mar!

“A vida é muito profunda. Foge de qualquer entendimento. Não é para ser entendida, é para ser sentida e vivida até o fundo da alma.”

Ah que bom seria se a nossa vida corresse suavemente como desejamos, não é mesmo? A vida é como um jardim… A gente sonha com as plantas que mais gosta, com folhagens exuberantes que Burle Marx nos deixou na memória, com lagos e cascatas, carpas e passarinhos, tempo ameno… Nem sol demais e nem chuva demais… Flores, frutas e vida! Eu posso apostar com cada um de vocês, que ao sonharem a vida como um jardim, ele será belo, colorido, pacífico e com vida em volta…

Mas nem sempre é assim. Por alguma razão as ervas daninhas aparentam ter mais força de vontade de viver do que as plantas ornamentais que escolhemos. Fui arquiteta paisagista por 15 anos e aprendi bem que precisamos batalhar contra as tiriricas e pragas similares. Elas invadem nossos sonhos, sem pedir licença e se alastram assombrosamente. No começo a gente põe veneno, cuida, arranca e ela vão embora. Mas tem vezes que são tão fortes que não tem jeito: a única solução é arrancar o gramado todo e começar da estaca zero, com grama e terra novas.

Infelizmente na vida não podemos arrancar nosso gramado. E em alguns casos temos que aprender a conviver com o efeito nefasto das tiriricas que poluem nossos sonhos.

navegar1A vida é muito profunda. Foge de qualquer entendimento. Não é para ser entendida, é para ser sentida e vivida até o fundo da alma. Uma vida que se compreende não passa de um pôr do sol estampado num quadro. Um Deus que se compreende não passa de um aquário. E o que queremos? Velejar em alto mar, sem limites! Sentir o vento, a água e o sol na pele. Há muita coisa para ser saboreada e degustada, desde o fel até o mel. E como diz Fernando Pessoa, “tudo vale a pena se a alma não é pequena.”

Então viver é navegar em alto mar! Sentir a beleza, a brisa, a água, o sol… Pelo menos eu penso que é o que deveria ser, mas as vezes por excesso de tiriricas no nosso jardim, nos enclausuramos em pequenos aquários e a liberdade do alto mar se esvai.

Rubem Alves certa vez disse querer desaprender para aprender de novo, raspando as tintas com que lhe haviam pintado os sentidos. As tintas, bem dito, são as camadas com que nos pintam, as palavras e sonhos que depositam e depositamos em nós. Pois bem, para continuar navegando em alto mar é preciso desaprender a pensar no jardim florido para aprender a conviver com as tiriricas que não podemos tirar.
Quem sabe aprendemos a graça de conviver com as ervas daninhas.

Nossa liberdade é a nossa força motriz. Sem ela, nem adianta ter sonhos. Não aguentamos o aquário por muito tempo e reinventamo-nos, desaprendemos para aprender novamente… Com ou sem tiriricas, nós queremos alto mar!

Eu gostaria de fazer um convite a vocês, que velejam, que são livres. Silenciem-se por uns minutos e pensem que a vida de vocês também pode encurralá-los num aquário um dia. Tomem em suas mãos a consciência pela bela vida que vocês têm. Sintam que estão em alto mar! Velejem! Deslizem pelas águas desse mundo de Deus e façam a vida de vocês valer a pena… Com ou sem tiriricas!

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Raquel Alves
Arquiteta por formação, hoje dedica-se integralmente a presidir o Instituto Rubem Alves, criado para manter vivo o pensamento de seu pai, difundir a sua obra e capacitar novos mestres.



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